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Disputa presidencial entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro movimenta politicamente o cenário musical brasileiro

Cidade FM . Cidade FM
21 de outubro de 2026
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Disputa presidencial entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro movimenta politicamente o cenário musical brasileiro


por Lusa,    21 Outubro, 2026

Anitta / Fotografia via Facebook da artista

A disputa presidencial entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro movimenta politicamente o cenário musical brasileiro, com artistas de diferentes géneros a declararem apoio aos dois candidatos na final da campanha eleitoral.

Enquanto muitos cantores de samba, Música Popular Brasileira (MPB), axé, pop, rock, rap, e forró declararam apoio ao líder de esquerda, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro manteve o legado do pai e conquistou apoio de artistas do género sertanejo.

Na quinta-feira, mais de 30 cantores sertanejos, entre eles Gusttavo Lima, Zezé Di Camargo, a dupla Gian e Giovani, e Marrone (da dupla com Bruno), participaram num encontro em Goiás, berço de um dos géneros musicais mais populares do Brasil, com o candidato do PL.

Com a gravação dos vídeos de apoio, o objetivo da campanha é mostrar força e levar os fãs desses artistas a votarem a favor de Flávio Bolsonaro, numa tentativa de fazer frente ao volume de outros artistas que declararam apoio e fizeram atos por Lula da Silva.

O historiador e investigador musical Bruno Viveiros, doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ressalvou, porém, que a divisão não é unânime e citou como exemplo o cantor sertanejo Luan Santana, que declarou apoio a Lula.

“O Luan Santana fez o ‘L’ lá em Brasília apoiando o Lula. O Gusttavo Lima, por sua vez, sempre apoiou o Bolsonaro”, exemplificou.

Para Viveiros, a aproximação de parte do sertanejo com candidatos conservadores tem raízes históricas que remontam à Ditadura Militar (1964-1985), quando duplas do género participaram na produção de canções associadas ao discurso oficial de desenvolvimento e patriotismo.

Segundo o historiador, esta relação também se manifestou posteriormente, durante a campanha presidencial de Fernando Collor, nos anos 1990, e mais recentemente no apoio de parte dos artistas sertanejos a Jair Bolsonaro (2019-2022).

“Isso tem a ver com uma raiz dessa canção que é ligada a compositores que vão valorizar a grande propriedade rural, vão valorizar as políticas conservadoras, os latifúndios”, afirmou.

Para o investigador, a relação entre o sertanejo e o campo político conservador também está ligada à aproximação dos grandes nomes atuais do género com o agronegócio, a mecanização da agricultura e os rodeios.

Decanos da MPB como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Djavan foram alguns dos primeiros artistas a declarar apoio a Lula da Silva na primeira volta e, já na segunda, participaram em atos organizados pela população e por artistas a favor de Lula da Silva.

A relação entre a MPB e a política, segundo Viveiros, também tem uma origem histórica, sobretudo entre artistas que iniciaram as suas carreiras nos anos 1960, durante a ditadura.

“A definição da MPB enquanto um bloco de artistas está ligada à luta contra a ditadura, à valorização da liberdade, à luta contra a censura”, afirmou, citando os nomes de Chico, Caetano, Gil, entre outros.

“A cultura brasileira era vista como uma forma de fruição, mas também para despertar e formar o espírito crítico no cidadão. A canção de protesto tem a ver com isso, a MPB também”, acrescentou.

No caso do samba, a relação entre música e política é ainda mais antiga, segundo o historiador, que destaca a origem do género entre populações perseguidas e a sua posterior transformação numa linguagem nacional.

“O samba nasce a partir da configuração de uma linguagem musical das classes perseguidas, inclusive por conta do racismo estrutural da nossa sociedade”, afirmou.

Também grandes nomes do rap nacional usaram as suas redes sociais para questionar fãs que se declaram de direita, e disserem que não existe rapper bolsonarista.

Nesse sentido, Xamã, Djonga, FBC e Baco Exu do Blues participarem em atos organizados por apoiantes de Lula da Silva nos últimos dias em protesto contra a extrema-direita.

Já Anitta, cantora de funk carioca e estrela pop, que tem uma legião de seguidores nas redes sociais, usou a sua audiência para criticar Flávio Bolsonaro e declarar apoio a Lula da Silva.

Crítico contumaz do bolsonarismo, o rapper FBC inovou de género musical neste ano ao lançar o disco de rock “Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades”, com críticas à família Bolsonaro e à extrema-direita.

Para Viveiros, o posicionamento de parte do rap também pode ser entendido como uma continuidade da tradição política de grupos ligados à cultura negra e periférica.

“O rap hoje em dia é herdeiro dessa tradição da cultura negra, periférica e das classes populares de não baixar a cabeça para os grandes projetos políticos que querem, muitas vezes, negar direitos como habitação, educação, saúde e lazer”, completou Viveiros, que é professor do Centro Universitário Estácio de Belo Horizonte.

A segunda volta das presidenciais brasileiras é disputada no domingo. Na primeira volta, em 04 de outubro, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula da Silva, uma vantagem de 2.224.965 votos, sendo que, desde a introdução do sistema de duas voltas nas presidenciais brasileiras, em 1989, nenhum candidato que terminou a primeira votação em segundo lugar conseguiu vencer a eleição.

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