O Spotify está a apertar o cerco à música gerada por inteligência artificial e às faixas criadas para manipular reproduções. A plataforma já retirou mais de 50 milhões destes conteúdos das recomendações dos utilizadores este ano.
A medida procura dar maior visibilidade a artistas humanos e reduzir a presença de músicas que ninguém pediu, mas que acabam por surgir em listas automáticas, rádios personalizadas e outras áreas das recomendações do serviço.
Spotify muda recomendações para travar “AI slop”
O Spotify analisou as faixas que os utilizadores ignoravam, saltavam rapidamente ou sinalizavam como indesejadas. Segundo a empresa, muitas eram identificadas de forma consistente como spam ou conteúdo gerado em massa por ferramentas de IA.
Nos últimos seis meses, o sistema de recomendações recebeu várias alterações para filtrar melhor este tipo de conteúdo. A plataforma afirma também que passou a favorecer música criada por artistas humanos.
Como o Spotify identifica música gerada por IA e spam
A empresa não depende de um único mecanismo. Em vez disso, combina vários sinais para aumentar a eficácia da deteção.
- Interação dos ouvintes e feedback recebido;
- Padrões anormais de carregamento de faixas;
- Metadados associados às músicas;
- Ferramentas externas de deteção de inteligência artificial;
- Duplicados, faixas demasiado curtas e manipulação de SEO;
- Redes de playlists criadas para gerar reproduções artificiais.
O Spotify diz que estes sistemas são atualizados à medida que os responsáveis pelo spam encontram novas formas de contornar os filtros. Desde a introdução das mudanças, a empresa registou uma redução nas queixas dos ouvintes relacionadas com música indesejada nas recomendações.
Mais de 75 milhões de faixas foram removidas da plataforma
As 50 milhões de músicas excluídas das recomendações não representam todas as remoções. O Spotify afirma ter eliminado completamente mais de 75 milhões de faixas que violavam de forma grave ou repetida as regras do serviço.
A diferença é importante: uma música pode deixar de ser sugerida aos utilizadores sem ser imediatamente retirada do catálogo. Já os conteúdos associados a abusos mais sérios podem desaparecer por completo da plataforma.
O problema das músicas criadas em massa
O crescimento de serviços como Suno e Udio tornou mais simples criar centenas ou milhares de músicas em pouco tempo. Alguns utilizadores aproveitam essa capacidade para carregar faixas em massa e recorrer a bots que repetem as reproduções.


O objetivo é gerar royalties de forma fraudulenta, mesmo quando as músicas têm pouco interesse real para os ouvintes. Este fenómeno ameaça tanto as receitas dos artistas como a qualidade das recomendações apresentadas ao público.
Para dificultar este esquema, o Spotify, depois de outras mudanças ligadas à IA na plataforma, introduziu em 2024 um mínimo anual de 1.000 reproduções para que uma faixa possa ser elegível para royalties de música gravada.
Spotify começa a identificar personas criadas por IA
A plataforma também começou a etiquetar personas artísticas geradas por inteligência artificial. Ao mesmo tempo, já verificou mais de 300.000 artistas humanos, responsáveis por mais de 99% das pesquisas realizadas pelos ouvintes no serviço.
Estas medidas surgem num momento de forte tensão entre a indústria musical e as empresas de IA. Editoras como a Universal Music Group e a Sony Music Entertainment mantêm disputas judiciais com a Suno, relacionadas com a utilização de gravações protegidas por direitos de autor no treino dos seus modelos.
A própria Suno anunciou tecnologias de marca de água sonora e impressão digital de áudio, além de limites nos downloads. A intenção é facilitar a identificação das músicas geradas na plataforma e impedir a sua distribuição automatizada em serviços de streaming.
O que muda para quem usa o Spotify?
Para a maioria dos utilizadores, a mudança deverá ser pouco visível, mas poderá ter um efeito direto na experiência diária. As recomendações tendem a incluir menos faixas repetitivas, duplicadas ou pouco relevantes.
O Spotify enfrenta agora um equilíbrio difícil: permitir novas formas de criação musical sem deixar que conteúdos produzidos em massa ocupem o espaço destinado aos artistas e às músicas que os ouvintes realmente querem descobrir.
Fonte: Gizmodo



