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Aliança completa 68 anos e cobra mais apoio ao futebol feminino

Cidade FM . Cidade FM
28 de outubro de 2026
. Esporte
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Aliança completa 68 anos e cobra mais apoio ao futebol feminino


O Aliança Futebol Clube completou 68 anos em 24 de outubro, data do aniversário de Goiânia. Referência no futebol feminino goiano, o clube mantém atividades ininterruptas na modalidade e soma 16 títulos estaduais. À frente da gestão da equipe, Patrícia Menezes, de 65 anos, acompanha a trajetória do esporte há quase cinco décadas e cobra mais apoio do poder público e da iniciativa privada.

Em entrevista ao Jornal Opção, Patrícia relembrou o início no futebol, a convocação para a Seleção Brasileira em 1991 e a participação na criação do departamento feminino do Atlético Goianiense. Ela também abordou as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no esporte e a preparação do Aliança para sua segunda participação na Copinha feminina, disputada em São Paulo.

“Eu comecei a jogar futebol quando era até proibido”, contou Patrícia, que começou a praticar a modalidade entre 1977 e 1978, por influência de uma amiga. Na época, ela já praticava queimada, voleibol e handebol. Ao receber o convite para jogar futebol, assumiu a posição de goleira.

A estreia marcou sua trajetória. Durante uma partida disputada, Patrícia defendeu três cobranças de pênalti e se identificou com o esporte. “Eu achei: ‘Opa, é esse o esporte que eu quero para mim’”, lembrou.

Naquele período, as mulheres enfrentavam restrições para jogar futebol. Segundo Patrícia, as partidas tinham caráter recreativo e não contavam com campeonatos oficiais. Em Goiânia, o Estádio Olímpico recebia jogos nos fins de semana. Os primeiros torneios reuniam entre 12 e 15 equipes, conforme o relato da gestora.

A regulamentação do futebol feminino, em 1983, abriu caminho para a organização da modalidade, mas também aumentou as exigências burocráticas. A filiação à Federação Goiana de Futebol e a necessidade de apresentar inscrições e documentos das atletas levaram equipes a desistir.

“Ficou muito burocrático. Muitas equipes desistiram, mas algumas persistiram”, afirmou Patrícia, que continuou no esporte e construiu uma trajetória dentro e fora de campo.

Passagem pelo Atlético Goianiense

Patrícia e o marido, Luiz Cezar, participaram da formação do departamento de futebol feminino do Atlético Goianiense. O trabalho durou 11 anos e envolveu competições estaduais e nacionais, incluindo campeonatos goianos, torneios de futsal e a Taça Brasil, competição nacional anterior ao formato atual do Campeonato Brasileiro.

De acordo com a gestora, o Atlético conquistou quatro títulos estaduais consecutivos durante esse período. A grande procura de jogadoras também motivou a reativação do Aliança Futebol Clube, em 1990. A equipe passou a receber atletas que treinavam com o grupo, mas não conseguiam espaço no elenco principal.

“Era como se fosse um time B do Atlético”, explicou.

Em 1994, Patrícia e Luiz Cezar deixaram o Atlético para se dedicar exclusivamente ao Aliança. A decisão, segundo ela, ocorreu pela busca de maior autonomia administrativa.

“Precisávamos fazer algumas coisas, mas sempre dependíamos do presidente para assinar. Então, precisando de mais autonomia, resolvemos deixar o Atlético e assumir de uma vez só o Aliança”, relatou.

Convocação para a Seleção Brasileira

Em 1991, Patrícia foi convocada para integrar o grupo que se preparava para disputar um Mundial na China. A oportunidade surgiu por meio de Eurico Lira, ligado ao Esporte Clube Radar, equipe que promovia competições internacionais e participou da formação da Seleção Brasileira feminina daquele período.

Após acompanhar um amistoso em Goiânia, o responsável pela observação de atletas convocou Patrícia e a zagueira Maria Auxiliadora. A oportunidade, porém, exigiu uma decisão pessoal: a goleira tinha uma filha de apenas dez meses.

“Eu falei: ‘Mas como que eu vou treinar com essa menina e tudo?’. Meu marido falou: ‘Não, você vai!’”, contou.

Patrícia aceitou o chamado e levou a filha durante o período de preparação. Ela permaneceu cerca de 20 dias com a Seleção, mas acabou dispensada no primeiro corte, assim como outras jogadoras.

Apesar de não seguir até o fim da preparação, a experiência fortaleceu sua determinação de contribuir para o desenvolvimento do futebol feminino em Goiás.

“Eu vim com outra mentalidade, com outra cabeça. Vim mais forte da Seleção para conquistar mais coisas para o futebol feminino”, afirmou.

Falta de apoio limita o futebol feminino em Goiás

Mesmo após décadas de atuação, Patrícia avalia que o futebol feminino goiano ainda carece de investimentos para ampliar sua participação no cenário nacional. Na avaliação da gestora, a falta de apoio do poder público e de empresários, aliada à cultura machista, restringe as oportunidades para clubes e atletas.

“Aqui a gente tem uma cultura muito machista. Nem o poder público, nem os empresários ajudam nessa questão do futebol feminino”, criticou.

Para Patrícia, Goiás poderia ter maior destaque nacional se as equipes tivessem melhores condições de trabalho.

“São mais de 40 anos vendo o futebol feminino precisar de auxílio. A gente poderia estar tendo um espaço melhor dentro do cenário nacional, mas não tem por conta justamente dessa falta de apoio”, disse.

A gestora atribui a continuidade do Aliança à persistência de quem manteve o projeto mesmo diante das dificuldades. Segundo ela, o clube é o mais antigo do Brasil em atividade contínua no futebol feminino e acumula 16 títulos estaduais.

Patrícia também compara a trajetória da equipe à de um clube baiano que, segundo seu relato, conquistou 15 títulos estaduais antes de encerrar as atividades há cerca de dez anos.

A história do Aliança atravessa diferentes fases da modalidade no país, desde o período de restrições até a expansão das competições de base e o aumento da visibilidade do futebol feminino.

Aliança se prepara para disputar a Copinha feminina

O Aliança vai disputar pela segunda vez a Copinha feminina, competição de base realizada em São Paulo e organizada pela Federação Paulista de Futebol. Na primeira participação, no ano passado, a equipe terminou na última colocação.

Apesar do resultado, o torneio ajudou a dar visibilidade a três atletas que posteriormente seguiram para clubes com estruturas maiores: Botafogo, Sport Recife e Ferroviária.

Para a próxima edição, Patrícia afirma que o elenco está sendo preparado com mais experiência. A expectativa é melhorar o desempenho coletivo e ampliar as oportunidades para as jogadoras.

“O ano passado foi um aprendizado. Dessa vez, estamos nos preparando melhor e vamos com uma equipe mais experiente”, afirmou.

A gestora considera a competição uma vitrine para as atletas do Aliança, principalmente pela possibilidade de serem observadas por clubes de outras regiões do país.

“Nosso objetivo é fazer uma boa apresentação, uma boa campanha e dar visibilidade para essas meninas. Queremos que elas tenham oportunidade de mostrar o futebol delas e que as outras equipes possam vê-las jogando”, concluiu.



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