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Adolescente autista é surpreendido em Senador Canedo

Cidade FM . Cidade FM
1 de novembro de 2026
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Adolescente autista é surpreendido em Senador Canedo


Aos 17 anos, João Pedro Gonçalves de Sousa vive uma fase que a família acompanha com orgulho: a conquista de amizades que, durante muito tempo, pareceram difíceis de estabelecer. Estudante do segundo ano do ensino médio no Colégio Estadual João Carneiro, em Senador Canedo, o adolescente foi surpreendido pelos colegas com uma comemoração de aniversário na escola. O gesto emocionou a mãe, Rachel Gonçalves dos Santos Sousa, de 40 anos, que acompanhou de perto os desafios enfrentados pelo filho desde a infância, quando ele ainda não falava e os pais tentavam entender o que acontecia com seu desenvolvimento.

A comunicação de João Pedro começou a chamar a atenção dos pais ainda nos primeiros anos de vida. Segundo Rachel, o desenvolvimento motor do menino ocorria dentro do esperado para a idade, mas havia dificuldades relacionadas à atenção e à fala. Por volta de um ano, ele ainda não balbuciava. A família chegou a investigar possíveis problemas auditivos, já que, mesmo quando era chamado repetidamente, ele não respondia.

Na época, os pais acreditavam que a demora para falar poderia estar relacionada à pouca interação com outras crianças. Depois de uma mudança de Goiânia para Senador Canedo, Rachel havia deixado o trabalho temporariamente e passava a maior parte do tempo com o filho. A hipótese de falta de socialização também foi considerada nas primeiras consultas médicas.

O cenário começou a mudar quando João Pedro tinha aproximadamente dois anos e passou a frequentar um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI), onde a mãe também trabalhava. O contato diário com outras crianças tornou mais perceptíveis algumas diferenças no comportamento e na comunicação dele.

Rachel conta que foi chamada pela gestão da unidade, que sugeriu uma investigação mais detalhada. A partir daí, os pais passaram por diferentes profissionais em busca de uma explicação. “A diferença dele com as outras crianças era gritante, muito gritante mesmo”, recorda.

Diagnóstico veio após busca por respostas

A busca por uma explicação para o desenvolvimento de João Pedro foi cansativa. De acordo com Rachel, a família passou por consultas com neurologistas e fonoaudiólogos, mas recebeu orientações diferentes. Em algumas ocasiões, as dificuldades do menino foram atribuídas à necessidade de tratamento fonoaudiológico ou até à forma como era criado.

Em 2014, após novas avaliações com um neurologista infantil, os pais receberam a confirmação de que João Pedro era autista. Rachel afirma que a maneira como o primeiro profissional comunicou o resultado provocou frustração e insegurança. Segundo ela, o médico teria dito que não havia o que fazer além de medicar a criança.

A mãe, porém, decidiu continuar procurando alternativas. Com a orientação de outros profissionais, João Pedro foi encaminhado à Associação Pestalozzi de Goiânia, onde começou a receber atendimento terapêutico e pedagógico. Na instituição, participou de atividades de psicomotricidade, psicoterapia e acompanhamento pedagógico, além de sessões de fonoaudiologia.

João Pedro durante atividade de estudo na infância, na Associação Pestalozzi de Goiânia (Vídeo: arquivo pessoal)

Foi com a ajuda da fonoaudiologia que ele começou a desenvolver a fala, por volta dos quatro anos. Desde então, a comunicação avançou, embora alguns aspectos ainda sejam trabalhados nas sessões. Atualmente, segundo a mãe, o tratamento inclui questões relacionadas à ecolalia, quando a pessoa repete palavras ou frases que ouviu, e à prosódia, que envolve características como entonação, ritmo e intensidade da voz.

Rachel lembra que receber a confirmação também exigiu uma adaptação emocional dos pais. “O diagnóstico, para uma mãe atípica, para um pai atípico, é de luto, né? Parece que a impressão é que você está perdendo muita coisa”, relata.

Ela conta que precisou aprender a lidar com as incertezas sobre o futuro do filho e, ao mesmo tempo, reorganizar a própria rotina. Mesmo diante das dificuldades, afirma que nunca deixou de acreditar no potencial de João Pedro.

A mãe também destaca a participação do marido, Marlos Rodrigues de Sousa, de 48 anos, auxiliar contábil, em toda a trajetória do adolescente. Segundo ela, o companheiro foi fundamental no processo e esteve ao seu lado diante dos desafios enfrentados pela família. “O pai também fez com que tudo isso acontecesse. Ele é um parceiro maravilhoso, e a referência dele como pai fez toda a diferença. Temos um vínculo muito forte como família, caminhamos juntos, vencendo todos os obstáculos”, afirma.

Escola e construção de amizades

João Pedro sempre estudou na rede pública de Senador Canedo. Durante a infância, recebeu apoio individualizado nas escolas municipais, desde os primeiros anos da educação infantil até o nono ano. A alfabetização ocorreu aos seis anos e, segundo a mãe, o autismo não comprometeu sua capacidade de aprender, embora ele tenha ritmos e necessidades diferentes conforme a disciplina.

O adolescente consegue ler, interpretar textos e acompanhar parte dos conteúdos escolares. Rachel observa que ele demonstra mais facilidade em algumas áreas, especialmente nas disciplinas de humanas, enquanto conteúdos de exatas podem exigir um trabalho maior de compreensão, sobretudo quando envolvem conceitos abstratos.

A adaptação ao ensino médio, no entanto, trouxe novos desafios. João Pedro ingressou no Colégio Estadual João Carneiro no ano passado e precisou se acostumar a uma rotina com mais estudantes na mesma sala e a um modelo de apoio compartilhado. No início, a mãe chegou a pensar que ele não conseguiria permanecer na instituição.

Aos poucos, porém, o adolescente passou a interagir mais com os colegas. Até então, tinha mais facilidade para conversar com adultos e demonstrava pouco interesse em estabelecer relações com crianças e adolescentes da mesma idade. Com o tempo, começou a fazer amizades e a participar mais da convivência escolar.

João Pedro é surpreendido pelos colegas com uma comemoração de aniversário na sala de aula (Vídeo: arquivo pessoal)

Para Rachel, a surpresa organizada pelos estudantes no aniversário do filho foi uma demonstração de que essas relações foram construídas por iniciativa dele. “Foi ele mesmo que conquistou tudo isso, sabe? Os colegas gostarem dele”, afirma, emocionada.

A mãe destaca que a relação com os outros estudantes surgiu naturalmente, a partir do convívio diário. Ela descreve João Pedro como um adolescente comunicativo e cativante.

Autonomia e desafios na adolescência

Além da escola, João Pedro mantém uma rotina que inclui terapia ocupacional, acompanhamento psicológico e fonoaudiológico, musculação, natação e bicicleta. Recentemente, também começou a participar de corridas de rua. Já esteve em duas provas de três quilômetros. Embora não tenha corrido todo o percurso, completou as duas com o acompanhamento da mãe.

João Pedro participa de corrida de rua de três quilômetros ao lado da mãe (Foto: arquivo pessoal)

Rachel afirma que procura incentivar a independência do filho nas tarefas que ele consegue realizar. Para ela, respeitar as particularidades do adolescente também significa reconhecer suas capacidades e não fazer por ele aquilo que já pode aprender a fazer sozinho.

“Se ele consegue fazer, ele vai fazer. Não tem essa coisinha de coitadinho”, diz.

Essa fase da vida também apresenta desafios. A mãe cita a rigidez cognitiva e a dificuldade de lidar com frustrações entre as questões que exigem mais atenção no cotidiano. João Pedro também tem sensibilidade a estímulos sensoriais: não gosta de barulho, movimento intenso ou ambientes muito cheios. Por isso, a família considera essas características ao organizar passeios e compromissos.

Rachel avalia que ainda é difícil encontrar profissionais capacitados para acompanhar pessoas autistas na adolescência. Segundo ela, há uma concentração de serviços voltados à infância, enquanto as demandas de quem cresce e chega à vida adulta também precisam ser consideradas.

“Se fala muito sobre autismo em criança, mas esquece que eles crescem, esquecem que eles vão ter uma vida adulta”, afirma.

Sonhos e interesses para o futuro

Entre os interesses de João Pedro estão os dinossauros, a música sertaneja e a tecnologia. Ele tem demonstrado curiosidade por computação e inteligência artificial, e a família já procura cursos que possam ajudá-lo a desenvolver essas habilidades.

Neste ano, o adolescente também viveu uma experiência marcante na escola. Durante uma festividade, cantou em inglês diante de outras pessoas, usando um microfone. Foi a primeira vez que se apresentou dessa maneira e, segundo Rachel, teve um ótimo desempenho.

João Pedro canta em inglês pela primeira vez durante apresentação na escola (Vídeo: arquivo pessoal)

Além das apresentações, João Pedro sonha em ter um vídeo que alcance muitas pessoas nas redes sociais e chegue até seus cantores favoritos. Um deles, Murilo Huff, chegou a enviar uma mensagem em vídeo depois que o adolescente recebeu ajuda de uma fonoaudióloga que tinha contato com a equipe do artista. A mãe conta que o filho ficou animado com a possibilidade de alcançar outros cantores.

Murilo Huff envia mensagem em vídeo para João Pedro (Vídeo: arquivo pessoal)

Rachel também precisou reorganizar a vida profissional e pessoal para conciliar os cuidados com o filho e as próprias atividades. Concursada, ela trabalha como secretária-geral de uma escola municipal em Senador Canedo. Também é fisioterapeuta e instrutora de Pilates. A rotina inclui o trabalho na escola, as aulas no estúdio, as atividades domésticas e os acompanhamentos de João Pedro.

Apesar das exigências, ela afirma que aprendeu a importância de preservar os próprios projetos e de contar com uma rede de apoio. Para Rachel, o desenvolvimento do filho não depende apenas de terapias e acompanhamentos, mas também de oportunidades de convivência, autonomia e participação na sociedade.

A comemoração preparada pelos colegas representou mais do que uma festa de aniversário. Para a mãe, foi a expressão dos vínculos que João Pedro construiu ao longo do tempo e uma lembrança de que ele tem conquistado seu espaço nas relações sociais.

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