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Por que Goiás tem e precisa de tantos Cristos? Há em Morrinhos, Senador Canedo, Três Ranchos e…

Cidade FM . Cidade FM
4 de novembro de 2026
. Cidades
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Por que Goiás tem e precisa de tantos Cristos? Há em Morrinhos, Senador Canedo, Três Ranchos e…


São tantos Cristos de braços abertos em Goiás que Bolha resolveu ir atrás deles. Queria saber quantos eram, onde estavam e o que essa multidão de redentores tinha a dizer sobre o Estado que os ergueu.

E acredite: 43 municípios goianos possuem um Cristo para chamar de seu, segundo o inventário do artista visual Joardo Filho. Para um personagem que pregava a vida itinerante, é uma respeitável quantidade de endereços fixos.

Eles recebem quem chega, acompanham quem sai e permanecem quando o prefeito termina o mandato. Ocupam morros, praças e entradas de cidades. Muda a escala, muda o pedestal, muda o horizonte. Os braços continuam abertos sobre uma paisagem em que a fé também se tornou uma maneira de anunciar: esta cidade existe, tem seus devotos e gostaria de aparecer na fotografia.

O levantamento de Joardo Filho está no fotolivro “Cristo Redentor, Goiás”, lançado em junho de 2026 no Barranco Ateliê, em Anápolis. Resultado de quase dez anos de pesquisa, com imagens do Google Street View, o trabalho documenta a presença desses monumentos em 43 municípios. Não é um cadastro oficial exaustivo, mas revela a dimensão de um fenômeno que a familiaridade tornou quase invisível.

Cristo Redentor, Senador Canedo. (Foto: Divulgação)

Bolha foi atrás das estátuas. Encontrou uma história de devoção, pertencimento e poder. Por que tantas cidades recorreram à mesma figura para dizer alguma coisa sobre si?

A resposta passa pela força do catolicismo na formação goiana, pela circulação de modelos de monumentos, pela vontade de transformar uma elevação em atração turística e pelo desejo, bastante terreno, de deixar uma obra que seja vista de longe. O céu oferece o personagem. A cidade escolhe onde colocá-lo.

Morrinhos: o mais antigo

Cristo em Morrinhos. O primeiro Redentor em Goiás. (Foto: Divulgação)

Em Morrinhos, essa história ganhou uma forma particularmente eloquente. A documentação disponibilizada pela prefeitura informa 27 metros para o Cristo do Morro da Cruz e situa sua inauguração em janeiro de 1970. Um estudo publicado na Revista da Academia Morrinhense de Letras acrescenta o detalhe que os cartões-postais costumam dispensar: a imagem veio de Campinas, em São Paulo, dividida em 103 peças, e foi inaugurada ainda inacabada em 31 de janeiro de 1970, último dia do mandato de Joviano Antônio Fernandes. Cristo podia esperar pelo acabamento. O calendário político tinha outros compromissos.

O episódio é pequeno apenas na aparência. O monumento integrava uma transformação urbana que pretendia apresentar Morrinhos como uma cidade moderna (há quem a chame de Atenas do Cerrado; é a terra dos escritores Alaor Barbosa e Eurico Barbosa). A posição de destaque, visível para quem chegava pela BR-153, permitia combinar devoção e anúncio de progresso. A imagem religiosa também servia de assinatura na paisagem.

Cristo Redentor, Morrinhos. (Foto: Divulgação)

Essa leitura não diminui a fé de quem olha para o alto. Acrescenta à obra a história de quem a encomendou. Morrinhos ocupa uma posição importante na genealogia desses monumentos.

Paraúna

O relato histórico publicado pela Prefeitura de Paraúna afirma que, quando decidiu instalar sua imagem, o prefeito Cezar Gomes da Silva buscou informações em Morrinhos, onde, segundo aquela narrativa, existia então a única imagem de Cristo do Estado.

É um testemunho de pioneirismo, não um levantamento exaustivo capaz de encerrar a disputa pelo mais antigo. Mas estabelece uma ligação concreta: um Cristo “goiano” ajudou a produzir outro.

O Cristo de Paraúna: adaptação à paisagem. (Foto: Divulgação)

Paraúna inaugurou o seu em 1976, durante a 10ª Festa do Arroz. Antes de erguer a imagem na serra da Capela de Nossa Senhora da Guia, foi necessário abrir o acesso, remover pedras com explosivos autorizados pelo Exército e calçar a estrada. A montagem das peças coube a José Maquieira Santa Maria, mais conhecido como Pepe.

A proteção espiritual exigiu alguma engenharia, circulação de conhecimento e uma estrada por onde o material pudesse passar. Há uma cadeia de imitação documentada nessa história. O Cristo carioca inspirava o desejo; Morrinhos oferecia a experiência próxima; Paraúna adaptava a solução à sua paisagem. A repetição se tornava possível porque a ideia monumental podia viajar, inclusive desmontada.

Isso ajuda a explicar a quantidade. Além de ser reconhecível, o modelo era reproduzível. Também explica por que chamar todos de réplicas idênticas empobrece o assunto. A postura dos braços aproxima as imagens, mas os rostos, as proporções, os materiais, os acabamentos e, principalmente, as bases produzem resultados distintos. Cada município acomoda o símbolo universal ao terreno, ao dinheiro disponível e à imagem que deseja oferecer de si.

Cada município acomoda o símbolo universal ao terreno. (Foto: Divulgação)

Três Ranchos

Em Três Ranchos, documento disponível no portal municipal informa uma escultura de 13 metros no cume da serra, a 839 metros de altitude. Uma medida descreve a imagem; a outra, sua posição em relação ao nível do mar. Em Senador Canedo, a prefeitura informa mais de 20 metros para o Cristo do Morro Santo Antônio. Morrinhos divulga 27.

Esses números permitem perceber diferenças de escala, mas não autorizam um campeonato estadual. As fontes nem sempre esclarecem se a altura inclui o pedestal. Sem padronizar a medição, o ranking seria uma disputa de fé assistida por uma trena pouco confiável.

Em Paraúna, o cuidado precisa ser maior: os cerca de 35 a 38 metros mencionados no relato municipal estão associados à elevação e à implantação da capela. Não devem ser transformados em altura da estátua. O inventário turístico local descreve a imagem com mais de dez metros.

A distinção importa porque o tamanho do morro costuma fazer parte do efeito do monumento. Uma estátua relativamente pequena, colocada acima da cidade, pode dominar a paisagem mais do que outra maior instalada numa rotatória.

O lugar amplia a imagem. E a imagem devolve ao lugar uma interpretação. A entrada da cidade sugere recepção. O alto do morro sugere proteção. A escadaria oferece um percurso que pode ser passeio, exercício ou penitência. A mesma estrutura atende a experiências diferentes sem exigir que os visitantes entrem em acordo sobre teologia.

Cristo de Três Ranchos: instalado no alto do morro, a estátua oferece proteção. (Foto: Divulgação)

Fé que ocupa caminhos

Para entender por que essa linguagem encontrou tanto espaço em Goiás, é preciso recuar além do concreto. A religiosidade goiana se expressa há muito em deslocamentos, festas e compromissos coletivos. Em Pirenópolis, a Festa do Divino tem registros desde 1819 e articula folias, celebrações, refeições, música e participação comunitária. O Iphan reconhece nela uma prática que organiza relações sociais e produz pertencimento. Em Trindade, a tradição religiosa situa por volta de 1840 o encontro do medalhão por Constantino Xavier e Ana Rosa, origem da devoção ao Divino Pai Eterno.

São histórias diferentes, mas ajudam a compreender um ambiente cultural em que a fé ocupa caminhos, calendários e espaços compartilhados. Ela também estabelece maneiras de reconhecer uma comunidade.

O Cristo monumental pode ser lido como uma expressão mais recente desse hábito de tornar a crença visível. Não resulta automaticamente das romarias, nem explica sozinho o universo religioso do estado. Mas dialoga com uma sociedade acostumada a relacionar território e devoção.

Em Piranhas, o Redentor tem escala monumental. (Foto: Divulgação)

Há ainda uma vantagem simbólica particular na figura de braços abertos: ela oferece uma mensagem de acolhimento imediatamente compreensível. Para o fiel, a proteção remete à ação divina. Para a administração municipal, pode se converter em hospitalidade. Para quem voltou depois de muitos anos, a silhueta conhecida pode significar simplesmente que chegou em casa.

Essas interpretações podem coexistir. Não há pesquisa de opinião neste levantamento que permita atribuir uma delas a todos os goianos. E convém lembrar que ne todos professam uma única fé.

Os resultados preliminares de religião do Censo 2022, divulgados em 2025, apontaram em Goiás aproximadamente 51,9% de católicos, 32,6% de evangélicos e 8,4% de pessoas sem religião, entre os moradores de dez anos ou mais (por sinal, há indivíduos religiosos que vão às igrejas, mas também às casas de candomblé etc.). Há também espíritas, adeptos de religiões de matriz africana e outras tradições. O Estado permanece majoritariamente cristão, com uma composição interna mais diversa do que a imagem de um único monumento consegue representar.

Também seria incorreto somar católicos e evangélicos e presumir uma relação igual com a estatuária religiosa. A centralidade de Cristo é compartilhada pelo cristianismo; as práticas de devoção e as posições sobre imagens variam entre suas tradições.

Por isso, a multiplicação dos Redentores informa algo sobre a história e a visibilidade do catolicismo, mas não funciona como um censo esculpido. Um monumento permanece por décadas. A sociedade à sua volta muda de religião, de geração e de entendimento sobre o espaço público.

O cartão-postal é uma possibilidade. A economia que deveria nascer ao redor dele exige trabalho depois da fotografia. A linguagem muda quando acaba a cerimônia. Saem os adjetivos da inauguração; entram fundações, instalações, orçamento e responsabilidade. O Cristo pode representar amparo. Sua estrutura continua dependendo de manutenção. E a família dos monumentos segue ganhando novas gerações.

Aragarças e Piranhas

Em Aragarças, uma imagem foi inaugurada em 2 de outubro de 2023, no aniversário de 70 anos do município. Em Piranhas, reportagem local registra a inauguração de uma nova escultura em 2024.

Cristo de Aragarças, inaugurado em 2023, dá as boas-vindas aos visitantes. (Foto: Divulgação)

A cidade já tinha uma história anterior: em junho de 2021, ao anunciar R$ 400 mil em emenda para uma nova obra, o gabinete da deputada federal Lêda Borges (Republicanos) informou que um Cristo de zinco erguido nos anos 1990 se deteriorara pela ação do tempo e por vandalismo. O anúncio previa uma imagem de concreto no alto da Serra Negra.

Piranhas é um dos exemplos recentes encontrados pela Bolha. Sem um cadastro atualizado, não é possível proclamá-lo o mais novo de todo o Estado. Tampouco os registros disponíveis permitem calcular quanto durou a construção de cada imagem. O intervalo entre anúncio de verba e inauguração não corresponde necessariamente ao tempo de obra.

A vontade de ampliar a coleção, porém, está documentada. Em junho de 2026, a Câmara de Goianésia – próspera cidade do Vale do São Patrício – divulgou a aprovação de um requerimento de Gesmar José da Silva para estudar a transferência do portal de entrada da cidade e a implantação de um Cristo Redentor no local.

A justificativa menciona identidade, valorização e referência visual para moradores e visitantes. É uma proposta de estudo, sem comprovação de obra contratada ou cronograma no material consultado. Mesmo antes de existir, a estátua já tinha recebido uma função: ajudar a cidade a ser reconhecida.

É aí que a pergunta sobre tantos Cristos – representando um Jesus Cristo – encontra sua resposta mais interessante. A devoção oferece uma imagem poderosa e familiar; a reprodução permite transportá-la; a administração pública enxerga um marco; o turismo promete circulação; os moradores acrescentam suas lembranças. Nenhum desses elementos explica tudo sozinho. Juntos, ajudam a compreender por que o gesto se repete.

Cristo Redentor: em todo estado a mesma devoção se repete. (Foto: Divulgação)

O Cristo instalado na entrada pode nascer de uma decisão de governo e, com o tempo, adquirir uma vida que escapa ao governo. Torna-se ponto de encontro, referência de endereço, destino de oração, memória de infância. O uso cotidiano acrescenta sentidos que não estavam no contrato de compra. Há o sentido religioso, que é forte. Há o sentido de que a cidade está, digamos assim, protegida. E há o sentido turístico.

Essa apropriação merece respeito. E merece pesquisa. Afinal, o valor afetivo de uma obra não elimina a necessidade de conhecer sua autoria, seu custo e sua história. Ao seguir as pistas desses Cristos, Bolha encontrou uma distância considerável entre a facilidade de exibir suas imagens e a dificuldade de documentá-las.

Sabemos reconhecer Cristo de longe. Nem sempre sabemos dizer quem o fez, quando começou a obra ou como foi paga. Para cidades que desejam transformar esses monumentos em patrimônio, há uma tarefa bastante concreta: preservar os registros com o mesmo zelo dedicado à silhueta.

Os braços estão abertos. Os arquivos também precisam estar. A história precisa de restrito objetivo e fidedigno.

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