Um levantamento do observatório De Olho nos Ruralistas identificou mais de R$ 5 bilhões em contratos públicos destinados a apresentações de artistas desde janeiro de 2024. O estudo, realizado ao longo de seis meses e reunido no dossiê “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio”, analisou mais de 20 mil contratos firmados por prefeituras e governos estaduais até 31 de março de 2026.
Os dados mostram que o dinheiro público movimentado pelo mercado de shows é muito maior do que costuma aparecer no debate sobre financiamento da cultura. Entre os cem artistas que mais receberam recursos no período, os contratos ultrapassam R$ 5 bilhões. Entre os 40 primeiros colocados, o valor chega a R$ 3,08 bilhões.
A lista é formada majoritariamente por nomes do sertanejo, forró, piseiro e arrocha. Natanzinho Lima aparece na primeira posição, com R$ 158 milhões em contratos para 336 apresentações realizadas ou contratadas desde 2024. Na sequência estão Henry Freitas, Wesley Safadão, Pablo, Luan Pereira, João Gomes, Zé Vaqueiro, Léo Santana, Maiara & Maraisa e Xand Avião.
Também aparecem entre os 20 primeiros colocados Mari Fernandez, Iguinho & Lulinha, Nattan, Simone Mendes, Leonardo, Belo, Rey Vaqueiro, Tarcísio do Acordeon, Zezé Di Camargo e Eduardo Costa.
O levantamento chama atenção para a dimensão dos valores envolvidos nas contratações realizadas diretamente por administrações públicas. Segundo os pesquisadores, dos 7.412 shows identificados entre os 40 artistas que lideram a lista, apenas 63% estavam registrados no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP). Os demais foram localizados em portais de transparência municipais e estaduais, diários oficiais e outras bases de dados.
No caso de Natanzinho Lima, o estudo também aponta uma forte valorização do cachê em pouco mais de dois anos. Em janeiro de 2024, o valor identificado pelos pesquisadores era de aproximadamente R$ 25 mil. Posteriormente, contratos chegaram a R$ 1 milhão por apresentação. O artista passou a integrar o casting da Camarote Shows, uma das empresas que aparecem entre as principais responsáveis pelos contratos analisados.
A concentração também aparece no lado empresarial. Cinco produtoras nordestinas somaram R$ 2,42 bilhões em contratos públicos envolvendo artistas que receberam mais de R$ 10 milhões desde 2024. A Camarote Shows aparece com cerca de R$ 701 milhões, seguida por Vybbe, com R$ 522 milhões; Tapajós, com R$ 385 milhões; Full, com R$ 338 milhões; e M&P, com R$ 251 milhões. Segundo o levantamento, 21 dos 40 artistas que ultrapassaram R$ 50 milhões em contratos públicos fazem parte do casting dessas empresas.
Os números também ajudam a diferenciar duas formas de utilização de recursos públicos que frequentemente são colocadas na mesma discussão. Os valores levantados pelo De Olho nos Ruralistas não são recursos da Lei Rouanet. Trata-se de contratos firmados diretamente por governos municipais e estaduais para a realização de shows.
A Lei Rouanet, por outro lado, funciona por meio de incentivo fiscal. Projetos culturais são analisados e, quando aprovados, ficam autorizados a buscar recursos junto a empresas e pessoas físicas, que podem direcionar parte do Imposto de Renda devido para essas iniciativas. A aprovação de um projeto, portanto, não significa que o artista tenha recebido automaticamente o valor autorizado pelo governo.
Em 2025, a Lei Rouanet registrou R$ 3,41 bilhões em captação, segundo dados do Ministério da Cultura. O valor é próximo dos R$ 3,08 bilhões encontrados pelo levantamento do De Olho nos Ruralistas apenas nos contratos dos 40 artistas que mais receberam recursos públicos entre 2024 e março de 2026. Os valores, porém, têm origens e mecanismos diferentes e não podem ser tratados como equivalentes.
A diferença é relevante porque parte do debate público sobre financiamento cultural costuma se concentrar na Lei Rouanet, enquanto contratos para shows realizados por prefeituras e governos estaduais representam outra frente de utilização de recursos públicos. Nesse modelo, o pagamento é feito pela administração responsável pela contratação, de acordo com as condições estabelecidas no contrato.
O levantamento coloca nesse grupo artistas que também aparecem no debate público por críticas à Lei Rouanet e ao uso de recursos públicos na cultura. Entre os nomes identificados estão Leonardo, Zezé Di Camargo, Eduardo Costa e outros artistas do sertanejo e de gêneros populares que estão entre os maiores beneficiários dos contratos analisados.
Os dados não permitem afirmar que os artistas tenham cometido irregularidades, nem que as contratações sejam ilegais. O estudo se concentra nos valores dos contratos e na dimensão desse mercado. A contratação de artistas por governos para eventos públicos é permitida pela legislação, desde que sejam observadas as regras aplicáveis a cada caso.
A investigação mostra, no entanto, o tamanho de um mercado que movimentou bilhões de reais em recursos públicos em pouco mais de dois anos. Ao mesmo tempo em que a Lei Rouanet permanece como um dos principais alvos das discussões sobre dinheiro público destinado à cultura, os contratos diretos de prefeituras e governos estaduais com artistas representam uma parcela expressiva dessa movimentação.
Em setembro de 2026, o De Olho nos Ruralistas atualizou o levantamento com contratos identificados até junho. O valor relacionado aos cem artistas que mais receberam recursos públicos chegou a R$ 6,52 bilhões, indicando que a movimentação continuou crescendo após o encerramento da primeira etapa da pesquisa.
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