Carros de luxo, festas, dinheiro e conquistas materiais se tornaram imagens recorrentes em parte do sertanejo contemporâneo. Para a dupla Fernando e Sorocaba essas referências não devem ser interpretadas apenas como exaltação do consumo.
“Muitas vezes aquilo representa uma história de superação, de mudança de vida, de alguém que veio de um determinado lugar e conseguiu chegar a outro”, analisa o cantor Fernando Zorzanello.
A dupla vai passar a inserir alguns elementos do chamado “sertanejo ostentação” em seu próximo trabalho. A dupla se prepara para celebrar duas décadas de carreira com uma turnê comemorativa em 2027.
Para Sorocaba, essa ampliação não significa necessariamente um afastamento das raízes do gênero, mas uma maneira de acompanhar as mudanças da sociedade e do próprio público. “O gênero ficou mais amplo porque a sociedade também ficou mais complexa. Hoje convivem várias narrativas dentro do sertanejo, e acho que essa pluralidade é um dos sinais de vitalidade do gênero”, diz o sertanejo.
Quando começaram, a prioridade era conquistar espaço, encontrar uma identidade musical e emplacar sucessos. “Hoje conseguimos olhar para trás e perceber que construímos algo que vai muito além de tudo isso”, afirma Sorocaba.
Entre essas iniciativas está o Churrasco On Fire, projeto que reúne música, gastronomia e músicas da nova geração. A proposta nasceu, segundo os músicos, da ideia de reunir amigos e familiares em torno de um churrasco, mas cresceu até se transformar em um espetáculo próprio, que na visão deles, não seria bem aceita antigamente.
A mesma lógica vale para as mudanças sonoras do sertanejo. Fernando e Sorocaba avaliam que a aproximação com o pop e outros estilos ajudou o gênero a alcançar pessoas que talvez não se identificassem com a música sertaneja tradicional. Para eles, o público atual transita com mais liberdade entre estilos, sem necessariamente se definir por um único gênero.
“Hoje as pessoas não necessariamente se definem por um único gênero musical. Elas podem ouvir sertanejo, pop, funk, rock, música eletrônica e country no mesmo dia. A música deixou de ser tão compartimentada”, afirma Fernando.
Na avaliação da dupla, a mistura de referências não precisa apagar a identidade de um artista. O que importa é como cada influência é incorporada ao trabalho, em vez de simplesmente reproduzir uma tendência.
Eles citam instrumentos como violino e steel guitar, associados ao gênero americano, como elementos presentes em sua sonoridade. Mais recentemente, essa aproximação ganhou outra dimensão com “NASH”, álbum gravado em Nashville, nos Estados Unidos, com a participação de compositores e produtores locais.
O projeto abriu caminho para uma apresentação no Grand Ole Opry, tradicional palco da música country americana. Para os músicos, o momento representa uma oportunidade de apresentar a identidade sertaneja a novos públicos, sem transformar a música brasileira em uma cópia do que é produzido nos EUA.
“É descobrir o que acontece quando essas duas culturas se encontram”, avalia Sorocaba. “O Brasil tem uma identidade sertaneja muito forte e uma história musical própria.”
A turnê de 20 anos, prevista para 2027, deve reunir essa mistura de memória e novidade. Os músicos pretendem revisitar sucessos que marcaram a trajetória, apresentar releituras e incluir músicas inéditas. A intenção, afirmam, não é fazer apenas uma retrospectiva, mas mostrar como a dupla enxerga o próprio repertório depois de duas décadas.
“Uma canção pode continuar sendo a mesma, mas a forma como você a enxerga depois de 20 anos é outra. Então, a turnê vai ter memória, mas também novidade, surpresa e, principalmente, muita música”, afirma Fernando.

