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Ler o Som: Companhia das Letras embarca no streaming de audiolivros a bordo do Spotify

Cidade FM . Cidade FM
11 de outubro de 2026
. Celebridades
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Ler o Som: Companhia das Letras embarca no streaming de audiolivros a bordo do Spotify


Ler o Som: Companhia das Letras embarca no streaming de audiolivros a bordo do Spotify

Mika Lins conta sobre o sonho do Cabine Estúdio no Viva-voz, André Sauer vai se tornando a voz de Tony Bellotto nos fones e a audiossérie ‘Vida Analógica’ evoca fitas cassetes, telefone fixo e cartas

GRAÚDAS

Audiolivros em debate © Feira do Livro de Frankfurt

Audiolivros em debate © Feira do Livro de Frankfurt

SPOTIFY DESEMBARCA E COMPANHIA EMBARCA | O mercado brasileiro de audiolivros ganha um concorrente de peso no próximo dia 15, quando o Spotify passa a oferecer o formato no país. E a novidade traz uma mudança importante nesse céu editorial: pela primeira vez, a Companhia das Letras disponibiliza os seus audiolivros em um serviço de streaming por assinatura, e não apenas para compra avulsa. A Penguin Random House, historicamente resistente a esse modelo, já participa do programa de audiolivros do Spotify desde o início, dentro do sistema de horas de escuta.

A expansão do Spotify leva os audiolivros de 22 para mais de 180 mercados, de acordo com anúncio feito na Feira do Livro de Frankfurt, onde o editor Guilherme Sobota está realizando a cobertura jornalística para o PublishNews. Foi ele quem apurou que, no Brasil, o serviço começa com cerca de 6 mil títulos em português, entre eles o catálogo completo da Companhia, e oferece 12 horas mensais de escuta no Plano Premium, sem custo adicional. Haverá ainda o Audiobooks+, para quem quiser ampliar o tempo de escuta, e a possibilidade de comprar títulos individualmente. Hoje, esse catálogo reúne 350 mil obras em diferentes idiomas.

Essa aterrissagem deve produzir um efeito que interessa muitíssimo a esta coluna: um estímulo à produção de mais audiolivros no Brasil. Duncan Bruce, líder global de parcerias do Spotify, disse em Frankfurt que a plataforma quer ampliar acordos com editoras e distribuidoras locais e que costuma observar crescimento ao entrar em novos países e regiões. “Nos mercados em que temos direitos, vamos sempre puxar pela língua local”, afirmou o executivo, o que coloca o Spotify na mesma página da Audible.

“O Spotify chega como uma oportunidade muito grande de destaque para os audiolivros no país, com possibilidades como a recomendação dos livros após podcasts relacionados, por exemplo. Acredito que beneficiará bastante o setor, impulsionando inclusive editoras pequenas e médias que já exploram o formato”, diz Antonio Hermida à Ler o Som. Sim, o Spotify quer aproximar olhos e ouvidos. Entre os recursos anunciados está o Page Match, que reconhece a página do livro impresso para que o leitor possa continuar a história no audiolivro — e, se quiser, fazer depois o caminho inverso. Tudo isso confirma a ideia de que audiolivros e livros de papel são apenas duas fileiras do mesmo avião. A acompanhar.

TITÃS NAS ALTURAS | A narração de Bellini e o labirinto, de Tony Bellotto, será entregue à Companhia das Letras nesta sexta-feira, 9 de outubro. Quem dá voz ao detetive Remo Bellini é André Sauer, escolhido pelo escritor e guitarrista dos Titãs. O narrador já deu voz aos outros dois livros do marido da Malu Mader disponíveis em áudio: Vento em setembro, vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Romance e nos tocadores desde o primeiro semestre, e Bellini e o demônio, lançado recentemente, em agosto. Gravado nos estúdios paulistanos da PT.BR, Bellini e o labirinto será, portanto, o terceiro livro do escritor a ganhar versão em audiolivro. Publicado originalmente em 2014, o romance marcou a volta de Remo Bellini depois de quase uma década longe das páginas e leva o detetive de São Paulo a Goiânia numa trama que mistura sequestro, música sertaneja e césio-137. Aos poucos, André Sauer vai se tornando a voz de Tony Bellotto nos fones.

O SOM CERTO DO MACACO | Quinze anos depois de sair de Foz do Iguaçu de moto com dois amigos e R$ 4 mil no bolso rumo a Cuba, Ary Neto voltou à estrada, agora em audiolivro de 5h45: Expresso Havana, relato da expedição que atravessou oito países e incluiu problemas mecânicos, brigas, a separação de um dos viajantes e uma travessia a pé pela selva de Darién, entre Colômbia e Panamá, chega aos ouvidos em produção do estúdio Toca Livros, em São Paulo, com Fernando Possani, Erick Santo Rei e Gustavo Rocha na narração. Depois de receber uma primeira versão com sonoplastia, Ary decidiu refazer parte da ambientação por considerar que alguns sons não correspondiam ao que havia vivido. Usou gravações originais da moto e foi atrás até do som correto do macaco bugio que ouvira na expedição. “O macaquinho que constava na versão original, do estúdio, era muito fofinho e não condizia com a realidade que vivi”, conta à Ler o Som. Já dá para você escutar no Google Play.

ESPANHOL A TODO VOLUME | O catálogo de audiolivros em espanhol passou de cerca de 12 mil para mais de 50 mil títulos em menos de cinco anos, segundo dados apresentados pela Bookwire durante a Liber Audio 2026, realizada em Barcelona. O mercado global de audiolivros, hoje estimado em US$ 8,6 bilhões, deve alcançar US$ 15 bilhões até 2030. Entre os mercados de língua espanhola, México e o público hispânico dos Estados Unidos estão entre os que crescem mais rapidamente. E não são apenas os lançamentos que puxam a escuta: entre 50% e 70% do consumo nas plataformas vem de títulos de fundo de catálogo. A assinatura ainda é o principal modelo comercial do áudio em espanhol, mas novas formas de acesso vêm ampliando o mercado, como a oferta de audiolivros pelo Spotify e o modelo da Skeelo, que distribui livros digitais por meio de parcerias com empresas de telecomunicações. No México, a expansão desse modelo ajudou o país a passar de 9% para 18% do mercado de audiolivros em espanhol em 2025.

VIVA-VOZ com Mika Lins, do Cabine Estúdio

Mika Lins diante do Cabine Estúdio, no Copan © Selfie

Mika Lins diante do Cabine Estúdio, no Copan © Selfie

Em novembro de 2025, Mika Lins e Sergio Glasberg compraram uma cabine de gravação. Era o começo de um sonho! Foram dois meses entre montagem e preparação até que, em fevereiro, o apartamento onde o casal mora, no Copan, no Centro de São Paulo, começasse a produzir os seus primeiros audiolivros sob encomenda de editoras como Fósforo e Companhia das Letras. Mika chegou ao edifício em 2000, Sergio se juntou a ela em 2004, quando os dois se casaram, muito antes de o endereço modernista virar o lugar badalado que é hoje. Pioneiros são pioneiros, não é? Foi ali que nasceu o Cabine Estúdio que, em poucos meses de atividades, já produziu 17 títulos e trabalhou com pouco mais de 20 narradores, além de editores e revisores. Para 2027, o sonho vai crescer e será do tamanho de uma segunda cabine.

Entre as primeiras produções do estúdio, dois audiolivros se destacam: Um útero é do tamanho de um punho (Companhia das Letras), livro feminista da poeta Angélica Freitas que chegou fazendo muito barulho e é narrado por ela, e Os imortais (Fósforo), de Paulliny Tort, sensação nas rodinhas literárias desde o seu lançamento, com narração de Camila Mota. Mika puxa mais um título para essa bancada: Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), um calhamaço com mais de 600 páginas, produzido e dirigido pelo Cabine. E descobriu uma consequência bastante concreta de transformar a própria casa em lugar de escuta: “Gosto de pensar que o efeito colateral desse trabalho é o quanto a gente lê. Foram mais de 2 mil páginas até agora”, contabiliza, num papo solto por telefone.

Atriz, diretora e agora também narradora, um pouco à revelia, como costumam ser alguns acontecimentos de uma vida pujante, Mika leva para dentro da cabine uma pergunta que parece simples até o microfone ser ligado: como fazer um texto escrito soar como uma história contada para uma única pessoa? À Ler o Som, ela fala sobre intimidade, corpo, pausas e verbos na direção de audiolivros e conta que, depois de tanta leitura alheia, prepara a própria voz para encarar o furacão Hilda Hilst (1930-2004). Bem-vinda, Mika! Bora conversar!

Obras que viraram audiolivros no Cabine © Reprodução

Obras que viraram audiolivros no Cabine © Reprodução

1. O que você mais diz dentro da cabine: “menos”, “mais”, “de novo” ou outra coisa?

MIKA LINS — “Repete pra mim, por favor?” (risos). E eu sempre chamo a atenção para os verbos. É o verbo que começa a nos contar a história.

2. O ouvinte de um audiolivro costuma estar sozinho, muitas vezes de fones, e você já falou sobre a importância de o narrador conversar diretamente com essa pessoa. Essa intimidade muda a sua maneira de dirigir uma leitura?

MIKA — Essa talvez seja a linha mestra para conduzir a leitura de um audiolivro: ter consciência de que você conta a história para alguém. Ali do outro lado, há uma pessoa que recebe a sua fala e as imagens que você envia. Você é o emissor da criação do autor. É um exercício íntimo, sim. Você fala com uma pessoa no singular e o que narra, vai para dentro da cabeça de quem ouve.

3. O corpo também lê? Falo de respiração, saliva, cansaço, fome, a voz da manhã e a voz depois de horas de gravação. Quanto do trabalho de produzir um audiolivro passa por administrar o corpo de quem narra?

MIKA — As pessoas acham que narrar um audiolivro é chegar lá, sentar e ler. Não é. É um trabalho em que o seu corpo tem que estar descansado. E a gente faz uma pausa a cada 30 ou 40 minutos para dar um respiro rápido e, assim, continuar a produção. Quem está captando o som e dirigindo a narração precisa estar bem atento para evitar retrabalho. Editores de audiolivros têm que ser sensíveis, e revisores também.

4. Você já dirigiu e narrou diferentes projetos de áudio. Pelo hábito, você escuta um texto mesmo quando está lendo em silêncio?

MIKA — Escuto! A origem da leitura no mundo é a leitura em voz alta. Sim, pelo hábito, não só escuto o texto como a minha leitura silenciosa é agora mais eficiente.

5. Afinal, Mika: por que ouvir um audiolivro é ler? O que vem por aí?

MIKA — A literatura nasceu primeiro na oralidade, né? De certa maneira, o audiolivro moderno traz de volta esse hábito ancestral da escuta. Agora, como narradora, coisa que não imaginei que seria na vida, tenho tentado me aperfeiçoar e estudar bastante o que vou ler. Neste momento, estou me preparando para narrar Hilda Hilst: A obscena senhora D. Tô lendo antes e tentando encontrar a voz para esse clássico sensacional. E depois vamos de Trilogia obscena, da Hilda também.

ESCUTA ESSA

Uma das 23 cartas recebidas por Rodrigo Alves © Acervo pessoal

Uma das 23 cartas recebidas por Rodrigo Alves © Acervo pessoal

JORNALISMO DE ANTIGAMENTE | Te juro! Você pluga o par de fones e é catapultado para décadas atrás. O som tem chiado, e o jornalista carioca Rodrigo Alves vai narrando o passo a passo dessa criação com ares saudosistas, que olha para o algoritmo por outro viés. Estamos falando da audiossérie Vida Analógica, que usa um único arquivo digital em toda a sua produção, assinada pelo Vida de Jornalista, podcast do próprio Rodrigo, associado à Rádio Guarda-Chuva, rede de podcasts jornalísticos independentes: justamente o arquivo que chega aos tocadores. Todo o resto passou pelo mundo físico: fitas cassetes, jornais impressos, telefone fixo, sonoplastia feita à moda antiga para criar vinhetas e até uma carta. Sim, uma carta. Rodrigo foi ao Correio e mandou uma para Gabriela, apresentando a ideia e pedindo uma entrevista. “E agora eu tô mergulhado nesse mundo das cartas, né, porque eu criei uma caixa postal pros ouvintes mandarem. E já chegaram 23 cartas hahaha”, comenta Rodrigo à Ler o Som. Ele já respondeu todas e guardou como relíquia numa pastinha comprada especialmente para. Espia a cartinha aqui da foto ao lado! A audiossérie faz parte do podcast Vida de Jornalista e vale muito a escuta!

LIVROS EM FAMÍLIA | O que O velho e o mar, de Ernest Hemingway, A hora da estrela, de Clarice Lispector, Bilac vê estrelas, de Ruy Castro, e A árvore mais sozinha do mundo, de Mariana Salomão Carrara, têm em comum? Além de serem leituras que caem no gosto popular, todos já renderam muito assunto entre o bibliófilo Carlos Peixe e seu genro, o jornalista e escritor Marcos André Lessa, no podcast Barbatana Literária. A dupla escolhe um livro e se põe a conversar sobre ele sem muita cerimônia, numa prosa que dá ao ouvinte a sensação de ter puxado uma cadeira na cozinha, depois do almoço de domingo, com um cafezinho cheiroso nas mãos. No episódio mais recente, eles proseiam sem roteiro sobre Grande sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, publicado em 1956 e essencial para todo o sempre. Entre impressões de leitura, passagens e detalhes do romance, Carlos e Marcos voltam ao sertão de Riobaldo justamente no ano em que o clássico completa sete décadas. Dá para dizer que é um clube de leitura em família, mas com a porta aberta para quem quiser chegar junto. Ouça o episódio!



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