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“Ninguém ouvia a minha música e eu preciso de viver disto.” Salvador Sobral explica regresso ao Spotify — NiT

Cidade FM . Cidade FM
26 de outubro de 2026
. Celebridades
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No início de 2026, Salvador Sobral estava cansado e sem vontade de escrever canções. Depois de uma digressão intensa, queria ficar em Barcelona, onde passou a viver, e ter tempo para a família. Tentou voltar à composição, mas as ideias não apareciam. O estado do mundo também não ajudava. A solução acabou por chegar através da companheira, a atriz francesa Jenna Thiam: porque não telefonar ao produtor brasileiro que já lhe tinha proposto trabalharem juntos?

Do outro lado estava Marcus Preto, antigo diretor artístico de Gal Costa, que o desafiou a viajar até São Paulo e a reunir canções de compositores brasileiros. Dessa proposta nasceu “A Flor do Recomeço”, editado a 16 de outubro, com produção de Preto e Tó Brandileone. O disco inclui temas escritos por nomes como Adriana Calcanhotto, Chico César, Marcelo Camelo e Mallu Magalhães, além de um dueto com Ney Matogrosso em “Bam Bam”.

A ligação à música brasileira vem da infância, das viagens de carro e das canções que os pais punham a tocar. Agora, Salvador gostava de ocupar esse lugar na vida de outras famílias. “Se alguma criança for com a família para o Algarve e puserem o meu disco, isso deixa-me muito feliz”, conta à NiT.






O álbum também lhe permitiu contrariar a imagem que muitos espectadores guardam desde a vitória na Eurovisão, em 2017. A voz de “Amar pelos Dois” não quer ficar limitada às baladas. Quando percebeu que o alinhamento estava a acumular demasiadas, pediu a Marcelo Camelo uma alternativa que desse vontade de dançar.

Fora do estúdio, há outra mudança na forma de encarar o trabalho. Ser pai ajudou-o a relativizar a procura da gravação perfeita, mas também o ruído que acompanha a exposição pública. Nos dias em que se sente desgastado com comentários e títulos sobre declarações suas, ir buscar a filha à escola devolve-lhe outra perspetiva. Para Aida, o disco, as entrevistas e as polémicas não têm importância: ele é o pai.

À NiT, Salvador Sobral, de 36 anos, falou sobre o bloqueio criativo que antecedeu este trabalho, os encontros com músicos brasileiros, as razões para voltar ao Spotify e a experiência de representar ao lado da companheira num filme sobre a própria relação.

“A Flor do Recomeço” nasceu depois de uma pausa. O que precisava de recuperar para voltar a gravar?
Vinha de uma digressão pelo mundo inteiro, bastante intensa. Tivemos muito trabalho, felizmente, e foi muito bom, mas acabei muito cansado. Tinha vontade de estar em casa, em Barcelona, para onde me tinha mudado, e de estar com a família. Também tentei fazer algumas sessões de composição com o meu parceiro habitual, mas não me sentia inspirado para compor ou escrever. Estava um pouco deprimido com o estado das coisas, com a situação do mundo e da sociedade.

Como apareceu a ideia de procurar canções no Brasil?
A minha companheira disse-me: “Aquele brasileiro, o diretor artístico da Gal Costa, tinha mostrado interesse em trabalhar contigo. Se calhar, isso podia ser uma boa coisa para te tirar do buraco.” Liguei ao Marcus Preto e ele disse logo: “Vens para São Paulo, reunimos os compositores que eu conheço e os que tu conheces e fazemos este disco.” Foi assim. Foi o que me tirou daquele bloqueio criativo e daquela falta de inspiração.

Conseguiu recuperar o entusiasmo, apesar do que se passa à sua volta?
Agora parece que o disco sai no meio dos destroços. É tão estranho ter um disco a sair e celebrá-lo quando o mundo está como está. Quando começámos a fazê-lo, as coisas já estavam mal, mas agora parecem estar ainda piores.

Cresceu a ouvir música brasileira. Que lugar gostava que este disco tivesse na vida de quem o ouve?
Gostava de fazer parte da banda sonora de crianças, como o Chico César fez parte da minha. Se alguma criança for com a família para o Algarve e puserem o meu disco, isso deixa-me muito feliz. Ainda por cima, há uma canção do próprio Chico no álbum. O que mais me atrai na música brasileira é a poesia das letras e aquela complexidade simples das harmonias e das melodias. É isso que, para mim, a faz superior.

Como foi pedir uma canção a Adriana Calcanhotto?
Já a conhecia pessoalmente. Participei num concerto dela em Setúbal, o que foi muito engraçado, porque ela é muito serena em palco, quase chamânica, e eu sou uma barata tonta. Ao início, pensei: “Como é que vamos juntar estas duas energias?” Mas ela gostou da minha forma de fazer música. Também cantou num concerto meu no Rio. Essa relação prévia ajudou. Pedi-lhe uma canção e ela mandou-me duas.

Porque escolheu “Fique à Vontade”?
A primeira não sentia que ficasse na minha voz. Uma pessoa sente ou não sente. “Fique à Vontade” tem muito da identidade dela enquanto compositora, uma espécie de acidez nas palavras. Diz “sinta-se em casa”, mas há ali qualquer coisa de “sinta-se em casa, mas não muito”. Adoro esse lado. Consegui imaginar-me a cantar aquela ironia. Foi por aí que a canção me apanhou, embora depois tenhamos mudado bastante o arranjo com a banda.

Com Marcelo Camelo também já existia essa proximidade?
Sim, conheço-o de Lisboa, de nos encontrarmos, a ele e à Mallu. Quando produziu o disco da Beatriz Pessoa, também fui gravar uns coros. Ele começou por me mandar uma canção em espanhol, o que achei muito curioso. Perguntei-lhe: “Porque é que me mandas uma canção em espanhol?” Também não me convenceu. O disco já estava a ficar com muitas baladas.

Sente que é isso que os compositores esperam da sua voz?
Acho que os compositores e o mundo em geral gostam de me ouvir cantar baladas, desde o fenómeno da Eurovisão. Eu já estava a ficar com um disco muito baladista e perguntei-lhe: “Não tens por aí na gaveta alguma coisa mais divertida, mais bailonga?” Ele disse que tinha aquela e ficou “Homem Louco”.

Em “Bam Bam”, canta com Ney Matogrosso. Como se conheceram?
Conheci-o no restaurante da minha mãe, quando ela fazia almoços e jantares para artistas depois dos concertos. Conheci o Ney e o Chico Buarque na mesma noite, só para ter uma ideia. O Ney pareceu-me uma pessoa simples, humilde, querida e sensível.

Essa simplicidade surpreendeu-o num artista com uma presença tão forte em palco?
É isso que gosto nos artistas mais velhos e consagrados: já não têm nada a provar a ninguém. O Ney, o Caetano, o Chico entendem o que fazem como um ofício. Fora do palco, vi uma pessoa simples, um senhor muito querido. Depois, quando vai para o palco, transforma-se completamente. Mas aquela personagem não deixa de ser genuína. Não é uma coisa forçada ou superficial, é outro lado dele. Foi isso que me atraiu.

Como surgiu o convite para gravarem juntos?
Além dessa ligação através da minha mãe, havia o João Mário Linhares, que é o manager dele e também a pessoa que me leva ao Brasil para fazer concertos. Foi através dele que fizemos essa ponte. O Ney foi muito querido desde o início.

Ser pai mudou a sua forma de cantar ou de trabalhar?
Acho que tudo o que vivemos afeta a nossa interpretação e o trabalho em geral. Ser pai ajuda-me a relativizar, tal como a minha doença e o consequente transplante me ajudaram a relativizar as coisas. Neste disco, não perdemos muito tempo com perfeccionismos em estúdio. Juntámo-nos, gravámos e o take que ficava era o que púnhamos no disco. A pergunta que fazia aos músicos era: “Podemos viver com isto?” Se podíamos, seguíamos. É o meu trabalho. Se ficou bem gravado, ainda bem.

Essa mudança de perspetiva também o ajuda a lidar com a exposição pública?
Tenho passado dias complicados com a promoção do disco. Estava sozinho em Barcelona com a Aida, porque a minha companheira estava a trabalhar em Paris, e estava a receber muitos comentários de ódio por coisas que disse sobre o Cristiano Ronaldo. Quem é que se importa com a minha opinião sobre o Cristiano Ronaldo? São coisas tiradas do contexto, títulos que fazem com declarações minhas. Acontece-me muito. Isso tira-me energia e deixa-me bastante desmotivado. Não há um título sobre o disco.

Sente vontade de passar a medir mais aquilo que diz?
Vejo outros artistas que lançam discos e cujas entrevistas são só sobre os discos. Mas eu sou esta pessoa, já percebi. Não vou deixar de dizer as coisas só para fazerem títulos com o meu disco. Vou ter de viver com isto.

E o que muda quando vai buscar a sua filha à escola?
Ela não sabe nada disso. É-lhe absolutamente indiferente o que as pessoas dizem ou não dizem sobre mim. O disco também lhe é indiferente. Eu sou só o pai da Aida. Em Barcelona, também era o pai da Aida até ir ao “La Revuelta”. Depois disso, fiquei conhecido, o que não me agradou nada. Pode ser que passe. Mas gosto muito dessa ideia: para ela, sou só o pai. Isso ajuda-me imenso.

Se tivesse de apresentar uma canção deste disco a alguém que só o conhece de “Amar pelos Dois”, qual escolheria?
Talvez mostrasse “Bam Bam”. Não sei se começaria por uma coisa muito densa, porque o disco é denso, nem por um tema demasiado jazzístico, porque a pessoa podia assustar-se. Quem só me conhece da Eurovisão acha que sou um português muito melancólico, que esteve doente e que só canta baladas. Depois vê as minhas entrevistas, em que digo parvoíces, e não está à espera. Mostraria “Bam Bam” e diria: “Olha, eu também sou isto.”

Retirou a sua música do Spotify e acabou por regressar. O que pesou nessa decisão?
Não atribuiria o meu regresso apenas à falta de apoio dos colegas. Comecei a sentir que ninguém ouvia a minha música, que ninguém comprava bilhetes, e eu preciso de viver disto. Essa também foi uma das razões.

Acredita que ainda é possível mudar a forma como a música é consumida nas plataformas?
A digitalização já chegou, acho que não se consegue combater. Mas podia legislar-se e regulamentar-se uma remuneração maior para os músicos, proteger os músicos e os compositores da inteligência artificial. Sei que é difícil. Também existem plataformas que considero mais éticas, como a Qobuz, mas precisam de mais público para melhorar o funcionamento e o algoritmo. No Spotify, escrevemos um verso de uma canção islandesa e ele encontra logo o que procuramos. Na Qobuz, às vezes escrevemos “Salvador Sobral” e parece que não sabe quem é. Precisamos de mais pessoas em plataformas mais éticas e justas, para os artistas e para a sociedade.

Que medidas considera mais importantes para responder à crise da habitação em Portugal?
Acho que a habitação social é a chave, como fizeram outros países. Mais construção, claro, mas mais habitação social. Não sou especialista, não tenho estudos para falar sobre isso e é um tema muito delicado. Mas tenho a certeza de que passa por aí. Também é preciso proteger o inquilino, não apenas o senhorio.

Estreou-se no cinema com “A Providência e a Guitarra”, de João Nicolau. Como viveu essa experiência?
Foi muito difícil. A cena em que a minha personagem se apresenta era um plano-sequência de dez minutos, com diálogos em português do século XIX. Coisas como “que dizeis, senhor”. Senti que fui logo posto à prova de uma forma muito dura. Por isso, o filme que fiz depois com a Jenna pareceu-me muito mais fácil, até porque estamos a fazer de nós próprios.

Como foi representar a vossa própria relação?
Acho que é uma coisa bonita, uma espécie de homenagem à nossa relação. Nós não somos muito de chamar a atenção, por isso foi um bocadinho estranho fazer um filme sobre nós. Mas os realizadores quiseram sempre proteger-nos e contar a nossa história. A verdade é que foi um início de relação bastante intenso: ganhar a Eurovisão e fazer um transplante no mesmo ano não é pouca coisa.

Foi fácil aceitar a ideia de transformar essa história num filme?
Quando os realizadores a ouviram, disseram: “Temos de fazer um filme.” Eu respondi que sim, mas depois eles conseguiram o apoio e, quando isso acontece, já é preciso fazê-lo mesmo.

Já tinha vontade de representar antes destes convites?
Ao ver a Jenna em palco, sempre tive esse bichinho. Sentia que podia fazer algum papel no teatro. Fizemos uma peça juntos num festival para crianças e depois surgiu o filme do João Nicolau. Gostava de voltar a fazer teatro, quem sabe.

O que mais o surpreendeu na passagem da música para o cinema?
Sinto que a música é uma área bastante solidária, democrática e menos hierárquica. Considero o cinema muito hierárquico. Na música, sinto que a relação é mais horizontal.









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