São Paulo – Durante anos, Spotify e Deezer chegaram aos festivais como patrocinadores, assinando palco, cabine de foto ou distribuição de ingressos. Agora as duas plataformas produzem os próprios eventos em São Paulo e usam o que sabem de cada ouvinte para decidir quem entra, quem sobe ao palco e o que o assinante ganha por manter o plano.
O Spotify Superfans Experience (SFX), que a plataforma apresenta como sua primeira experiência global dedicada à cultura de fã, ocupa o Distrito Anhembi nos dias 23 e 24 de janeiro de 2027, com 18 mil ingressos e nomes como Ludmilla, Matuê, Pedro Sampaio, Pabllo Vittar e Marina Sena. A Deezer estreia o Deezer Live com Luísa Sonza em 27 de outubro, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Ibirapuera, com entrada sem custo para assinantes que se inscrevem pelo aplicativo.
A cantora aparece nas duas apostas. Três meses depois de abrir a série da Deezer, ela também está no line-up do SFX, no formato de experiência com fãs, o que coloca as duas plataformas disputando o mesmo fandom com propostas diferentes de acesso.


O dado de escuta decide quem entra
No SFX, os maiores ouvintes premium de cada artista receberam pela própria plataforma um código para a pré-venda de 8 de outubro, cinco dias antes da venda geral, com ingressos de R$ 205 a R$ 410 por dia no primeiro lote e pacote de dois dias por até R$ 656. Segundo o anúncio oficial, a escalação partiu de dados de audiência e de pesquisa sobre comunidades de fãs, e o Brasil serve de modelo para futuras edições em outros países.
O line-up também separa formatos. Ludmilla, Matuê, Pedro Sampaio, Veigh e Duquesa entram como performance, enquanto Juliette, Pabllo Vittar, Marina Sena, Luísa Sonza e Carol Biazin aparecem no formato de experiência, e até podcasts como Não Importa, Pod de Chique e Um Milkshake Chamado Wanda ganham espaço na programação. Pelo release, o país foi escolhido por reunir fandoms diversos e engajados, uma cena cultural capaz de mobilizar grandes comunidades e um mercado de experiências ao vivo consolidado.
“O fandom se tornou uma das forças mais relevantes da cultura, e o Spotify tem uma posição privilegiada para entender como essas comunidades se formam, se movimentam e se conectam com artistas e creators. O Spotify Superfans Experience nasce dessa inteligência, transformando dados e sinais culturais em experiências presenciais.”
Marina Burini, Lead LATAM de Creative Business Strategy do Spotify










Na Deezer, superfã é quem mais escuta determinado artista na plataforma. Para o Deezer Live, o usuário se inscreve na aba Club do aplicativo e aguarda a divulgação dos contemplados, sem venda de ingressos, dentro do Deezer Club, programa de benefícios que chegou ao Brasil em agosto depois de estrear na França, em 2024, onde a série de shows também passou a se chamar Deezer Live.
O programa já tem escala no mercado de origem. Em 2025, a Deezer promoveu 275 concursos com acessos e experiências exclusivas, e a aba do Club somou 4,9 milhões de visualizações por mês, segundo a empresa, que não divulga o número de participantes.
A assinatura precisa de motivo para ser paga
Os números da Deezer ajudam a explicar a aposta. No primeiro semestre de 2026, a base total caiu 3,5%, para 8,9 milhões de assinantes, puxada pelos planos vendidos por parceiros, que recuaram 20,2% com a redução já esperada do contrato com o Mercado Livre, enquanto os assinantes diretos, que pagam o próprio plano, cresceram 8,7%, para 5,8 milhões.
“Amamos participar de festivais e queremos continuar fomentando essas parcerias, mas nossos eventos proprietários permitem um nível de conexão mais profundo com nossos usuários. Especialmente depois do lançamento do Deezer Club, esse tipo de evento acaba se tornando um grande exemplo dos benefícios incluídos na assinatura da Deezer.”
Yuri Valdevite, líder de Marketing LATAM da Deezer
O Spotify fala de outra escala, com 300 milhões de assinantes Premium e 777 milhões de usuários mensais no segundo trimestre, e de um mercado em que o fã mais engajado vale mais. O relatório Music in the Air, do Goldman Sachs (2024) estima que 20% dos assinantes pagos sejam superfãs dispostos a gastar cerca de duas vezes mais com música, uma oportunidade calculada em US$ 4,5 bilhões.
O gasto com música ao vivo reforça a conta. Nos Estados Unidos, a Luminate calculou, com dados de 2024, que os superfãs desembolsam em média US$ 113 por mês com música ao vivo, contra US$ 68 do ouvinte médio. No Brasil, o streaming respondeu por 87% dos R$ 3,96 bilhões faturados pelo mercado fonográfico em 2025, alta de 14,1%, e o país subiu para o oitavo lugar no ranking mundial, segundo a Pro-Música Brasil, em uma América Latina que cresceu 17,1% e liderou a expansão global no relatório da IFPI.
De patrocinador a produtor
A Deezer faz eventos proprietários no Brasil desde 2022, segundo Valdevite, e vem alternando os dois papéis. Em fevereiro de 2025, a terceira edição do Deezer Sessions de Verão reuniu cerca de 800 superfãs em uma casa em Santa Teresa, no Rio, com shows de Pabllo Vittar e Dilsinho, e o Purple Door levou Leo Santana a Salvador em 2024, para 300 fãs, na primeira edição fora da França, e o Menos É Mais a Brasília em 2025.
Neste semestre, a plataforma ainda assinou o palco principal do ZIG Festival, no Rio e em São Paulo, e distribuiu pares de ingressos para superfãs via Club, até chegar ao formato próprio com a Luísa Sonza. O foco, segundo a empresa, é entregar a primeira temporada do Deezer Live em São Paulo, que vai até o primeiro trimestre de 2027, antes de decidir os próximos passos.








O formato que o Spotify já testa lá fora
O SFX é o maior passo do Spotify no país, mas o modelo vem sendo testado em outros mercados com o Billions Club Live, série de shows para os maiores ouvintes de artistas com músicas acima de 1 bilhão de execuções. Depois da estreia com The Weeknd em Los Angeles, em 2024, e de Miley Cyrus em Paris, o formato levou Ed Sheeran a Dublin para mais de 1.700 fãs, Bad Bunny a Tóquio para mais de 2.300 e Olivia Rodrigo a Barcelona para 1.500, com filme do show lançado na plataforma.
Com o mexicano El Bogueto, em setembro, o show teve repertório votado no aplicativo e 600 convidados escolhidos entre os maiores fãs, e o Spotify informou que 42% dos ouvintes do artista estão nos dois níveis mais altos de engajamento medidos pela plataforma.
Nos Estados Unidos, a empresa foi além do show próprio e passou a guardar lugares na turnê dos outros. O Reserved by Spotify, lançado em junho com Live Nation e Ticketmaster, identifica os fãs mais dedicados por audições, salvamentos, compartilhamentos e localização, e chegou a quase 100 mil ingressos reservados até agosto, segundo o balanço do segundo trimestre. A ferramenta, que já chegou ao Canadá, ainda não opera no Brasil.








O que muda para marcas e agências
Para quem compra patrocínio, a mudança aparece no desenho da cota. A plataforma que antes era uma das marcas do festival passa a ser dona do palco, do ingresso e da informação sobre quem estará na plateia, e o Spotify já avisou que parceiros e marcas do SFX serão anunciados nos próximos meses, com o evento apresentado como plataforma de conexão entre fãs, artistas, creators e marcas.
A conta ajuda a explicar por que as plataformas conseguem bancar o formato. Felipe Brat, CEO da Spons, consultoria de inteligência em patrocínios do grupo B&Partners que usa uma plataforma de dados para mapear e medir a presença de marcas em eventos, e ex-diretor de patrocínio da Ambev, calcula que um evento proprietário custa de 7 a 10 vezes o valor de um patrocínio master. Segundo ele, o investimento se justifica quando a marca precisa estabelecer os próprios padrões de execução e ter controle total sobre a jornada do cliente e a narrativa.
Para o streaming, segundo ele, a conta muda de tamanho.
“Para as plataformas de streaming, esse valor pode cair entre 40% e 50% devido à proximidade com os artistas e seus escritórios. Essa redução viabiliza o formato proprietário e transforma o evento em um valioso inventário de entrega de experiências para marcas anunciantes.”
Felipe Brat, CEO da Spons e ex-diretor de patrocínio da Ambev
O acesso também segue lógicas diferentes. No Spotify, os maiores ouvintes compram antes e o restante do público compra na venda geral; na Deezer, o show é benefício exclusivo de quem assina, distribuído por inscrição, sem bilheteria. Em comum, as duas transformam o aplicativo em porta de entrada para o ao vivo, um caminho que o Spotify já pavimenta com a playlist Concerts Near You, usada por mais de 3 milhões de pessoas para descobrir shows.


