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O que leva Spotify e Deezer a produzirem os próprios shows em vez de só patrocinar?

Cidade FM . Cidade FM
14 de outubro de 2026
. Celebridades
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O que leva Spotify e Deezer a produzirem os próprios shows em vez de só patrocinar?


São Paulo – Durante anos, Spotify e Deezer chegaram aos festivais como patrocinadores, assinando palco, cabine de foto ou distribuição de ingressos. Agora as duas plataformas produzem os próprios eventos em São Paulo e usam o que sabem de cada ouvinte para decidir quem entra, quem sobe ao palco e o que o assinante ganha por manter o plano.

O Spotify Superfans Experience (SFX), que a plataforma apresenta como sua primeira experiência global dedicada à cultura de fã, ocupa o Distrito Anhembi nos dias 23 e 24 de janeiro de 2027, com 18 mil ingressos e nomes como Ludmilla, Matuê, Pedro Sampaio, Pabllo Vittar e Marina Sena. A Deezer estreia o Deezer Live com Luísa Sonza em 27 de outubro, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Ibirapuera, com entrada sem custo para assinantes que se inscrevem pelo aplicativo.

A cantora aparece nas duas apostas. Três meses depois de abrir a série da Deezer, ela também está no line-up do SFX, no formato de experiência com fãs, o que coloca as duas plataformas disputando o mesmo fandom com propostas diferentes de acesso.

Arte de divulgação com o line-up do Spotify Superfans Experience, no Distrito AnhembiArte de divulgação com o line-up do Spotify Superfans Experience, no Distrito Anhembi
Arte de divulgação do SFX, que reúne shows, experiências e podcasts em dois dias no Distrito Anhembi. Imagem: Divulgação/Spotify

O dado de escuta decide quem entra

No SFX, os maiores ouvintes premium de cada artista receberam pela própria plataforma um código para a pré-venda de 8 de outubro, cinco dias antes da venda geral, com ingressos de R$ 205 a R$ 410 por dia no primeiro lote e pacote de dois dias por até R$ 656. Segundo o anúncio oficial, a escalação partiu de dados de audiência e de pesquisa sobre comunidades de fãs, e o Brasil serve de modelo para futuras edições em outros países.

O line-up também separa formatos. Ludmilla, Matuê, Pedro Sampaio, Veigh e Duquesa entram como performance, enquanto Juliette, Pabllo Vittar, Marina Sena, Luísa Sonza e Carol Biazin aparecem no formato de experiência, e até podcasts como Não Importa, Pod de Chique e Um Milkshake Chamado Wanda ganham espaço na programação. Pelo release, o país foi escolhido por reunir fandoms diversos e engajados, uma cena cultural capaz de mobilizar grandes comunidades e um mercado de experiências ao vivo consolidado.

“O fandom se tornou uma das forças mais relevantes da cultura, e o Spotify tem uma posição privilegiada para entender como essas comunidades se formam, se movimentam e se conectam com artistas e creators. O Spotify Superfans Experience nasce dessa inteligência, transformando dados e sinais culturais em experiências presenciais.”

Marina Burini, Lead LATAM de Creative Business Strategy do Spotify

Cantora Ludmilla, confirmada no Spotify Superfans ExperienceCantora Ludmilla, confirmada no Spotify Superfans Experience
Ludmilla está entre as atrações de performance do sábado (23). Foto: Divulgação/Spotify
Rapper Matuê, confirmado no Spotify Superfans ExperienceRapper Matuê, confirmado no Spotify Superfans Experience
Matuê está entre as performances do domingo (24). Foto: Divulgação/Spotify
Pabllo Vittar, confirmada no formato experiência do Spotify Superfans ExperiencePabllo Vittar, confirmada no formato experiência do Spotify Superfans Experience
Pabllo Vittar entra no formato de experiência com fãs, e não em show. Foto: Divulgação/Spotify
Cantora Marina Sena, confirmada no Spotify Superfans ExperienceCantora Marina Sena, confirmada no Spotify Superfans Experience
Marina Sena também participa no formato de experiência. Foto: Gabriela Schmidt/Divulgação Spotify
Cantora Luísa Sonza, confirmada no Spotify Superfans ExperienceCantora Luísa Sonza, confirmada no Spotify Superfans Experience
Luísa Sonza está no SFX e também estreia o Deezer Live, em outubro. Foto: Divulgação/Spotify

Na Deezer, superfã é quem mais escuta determinado artista na plataforma. Para o Deezer Live, o usuário se inscreve na aba Club do aplicativo e aguarda a divulgação dos contemplados, sem venda de ingressos, dentro do Deezer Club, programa de benefícios que chegou ao Brasil em agosto depois de estrear na França, em 2024, onde a série de shows também passou a se chamar Deezer Live.

O programa já tem escala no mercado de origem. Em 2025, a Deezer promoveu 275 concursos com acessos e experiências exclusivas, e a aba do Club somou 4,9 milhões de visualizações por mês, segundo a empresa, que não divulga o número de participantes.

A assinatura precisa de motivo para ser paga

Os números da Deezer ajudam a explicar a aposta. No primeiro semestre de 2026, a base total caiu 3,5%, para 8,9 milhões de assinantes, puxada pelos planos vendidos por parceiros, que recuaram 20,2% com a redução já esperada do contrato com o Mercado Livre, enquanto os assinantes diretos, que pagam o próprio plano, cresceram 8,7%, para 5,8 milhões.

“Amamos participar de festivais e queremos continuar fomentando essas parcerias, mas nossos eventos proprietários permitem um nível de conexão mais profundo com nossos usuários. Especialmente depois do lançamento do Deezer Club, esse tipo de evento acaba se tornando um grande exemplo dos benefícios incluídos na assinatura da Deezer.”

Yuri Valdevite, líder de Marketing LATAM da Deezer

O Spotify fala de outra escala, com 300 milhões de assinantes Premium e 777 milhões de usuários mensais no segundo trimestre, e de um mercado em que o fã mais engajado vale mais. O relatório Music in the Air, do Goldman Sachs (2024) estima que 20% dos assinantes pagos sejam superfãs dispostos a gastar cerca de duas vezes mais com música, uma oportunidade calculada em US$ 4,5 bilhões.

O gasto com música ao vivo reforça a conta. Nos Estados Unidos, a Luminate calculou, com dados de 2024, que os superfãs desembolsam em média US$ 113 por mês com música ao vivo, contra US$ 68 do ouvinte médio. No Brasil, o streaming respondeu por 87% dos R$ 3,96 bilhões faturados pelo mercado fonográfico em 2025, alta de 14,1%, e o país subiu para o oitavo lugar no ranking mundial, segundo a Pro-Música Brasil, em uma América Latina que cresceu 17,1% e liderou a expansão global no relatório da IFPI.

De patrocinador a produtor

A Deezer faz eventos proprietários no Brasil desde 2022, segundo Valdevite, e vem alternando os dois papéis. Em fevereiro de 2025, a terceira edição do Deezer Sessions de Verão reuniu cerca de 800 superfãs em uma casa em Santa Teresa, no Rio, com shows de Pabllo Vittar e Dilsinho, e o Purple Door levou Leo Santana a Salvador em 2024, para 300 fãs, na primeira edição fora da França, e o Menos É Mais a Brasília em 2025.

Neste semestre, a plataforma ainda assinou o palco principal do ZIG Festival, no Rio e em São Paulo, e distribuiu pares de ingressos para superfãs via Club, até chegar ao formato próprio com a Luísa Sonza. O foco, segundo a empresa, é entregar a primeira temporada do Deezer Live em São Paulo, que vai até o primeiro trimestre de 2027, antes de decidir os próximos passos.

Público diante do palco do Deezer Sessions de Verão, em Santa TeresaPúblico diante do palco do Deezer Sessions de Verão, em Santa Teresa
Público no Deezer Sessions de Verão, em Santa Teresa, no Rio, em fevereiro de 2025. Foto: @shourico/Deezer
Pabllo Vittar canta no palco do Deezer Sessions de VerãoPabllo Vittar canta no palco do Deezer Sessions de Verão
Pabllo Vittar no Deezer Sessions de Verão, em 2025. Foto: @shourico/Deezer
Dilsinho canta no palco do Deezer Sessions de VerãoDilsinho canta no palco do Deezer Sessions de Verão
Dilsinho no Deezer Sessions de Verão, em 2025. Foto: @shourico/Deezer
Espaço cenográfico roxo com a frase Meu stream virou uma festa no Deezer Sessions de VerãoEspaço cenográfico roxo com a frase Meu stream virou uma festa no Deezer Sessions de Verão
Espaço de convivência do Deezer Sessions de Verão, em 2025. Foto: @shourico/Deezer

O formato que o Spotify já testa lá fora

O SFX é o maior passo do Spotify no país, mas o modelo vem sendo testado em outros mercados com o Billions Club Live, série de shows para os maiores ouvintes de artistas com músicas acima de 1 bilhão de execuções. Depois da estreia com The Weeknd em Los Angeles, em 2024, e de Miley Cyrus em Paris, o formato levou Ed Sheeran a Dublin para mais de 1.700 fãs, Bad Bunny a Tóquio para mais de 2.300 e Olivia Rodrigo a Barcelona para 1.500, com filme do show lançado na plataforma.

Com o mexicano El Bogueto, em setembro, o show teve repertório votado no aplicativo e 600 convidados escolhidos entre os maiores fãs, e o Spotify informou que 42% dos ouvintes do artista estão nos dois níveis mais altos de engajamento medidos pela plataforma.

Nos Estados Unidos, a empresa foi além do show próprio e passou a guardar lugares na turnê dos outros. O Reserved by Spotify, lançado em junho com Live Nation e Ticketmaster, identifica os fãs mais dedicados por audições, salvamentos, compartilhamentos e localização, e chegou a quase 100 mil ingressos reservados até agosto, segundo o balanço do segundo trimestre. A ferramenta, que já chegou ao Canadá, ainda não opera no Brasil.

Olivia Rodrigo no palco do Teatre Grec, em Barcelona, diante dos fãs no show do SpotifyOlivia Rodrigo no palco do Teatre Grec, em Barcelona, diante dos fãs no show do Spotify
Olivia Rodrigo no Billions Club Live, em Barcelona, em maio de 2026. Foto: Xavi Torrent/Spotify
Palco do Billions Club Live, do Spotify, com orquestra e letreiro iluminado, em TóquioPalco do Billions Club Live, do Spotify, com orquestra e letreiro iluminado, em Tóquio
Bad Bunny no Billions Club Live, em Tóquio, em março de 2026. Foto: Divulgação/Spotify
Palco do show de El Bogueto, do Spotify, com telas que exibem fotos dos fãsPalco do show de El Bogueto, do Spotify, com telas que exibem fotos dos fãs
Show de El Bogueto para 600 top fãs na Cidade do México, em setembro de 2026. Foto: Divulgação/Spotify
LE SSERAFIM no palco de show do Spotify para fãs em SeulLE SSERAFIM no palco de show do Spotify para fãs em Seul
LE SSERAFIM em show do Spotify para 300 top fãs em Seul, em maio de 2026. Foto: Divulgação/Spotify

O que muda para marcas e agências

Para quem compra patrocínio, a mudança aparece no desenho da cota. A plataforma que antes era uma das marcas do festival passa a ser dona do palco, do ingresso e da informação sobre quem estará na plateia, e o Spotify já avisou que parceiros e marcas do SFX serão anunciados nos próximos meses, com o evento apresentado como plataforma de conexão entre fãs, artistas, creators e marcas.

A conta ajuda a explicar por que as plataformas conseguem bancar o formato. Felipe Brat, CEO da Spons, consultoria de inteligência em patrocínios do grupo B&Partners que usa uma plataforma de dados para mapear e medir a presença de marcas em eventos, e ex-diretor de patrocínio da Ambev, calcula que um evento proprietário custa de 7 a 10 vezes o valor de um patrocínio master. Segundo ele, o investimento se justifica quando a marca precisa estabelecer os próprios padrões de execução e ter controle total sobre a jornada do cliente e a narrativa.

Para o streaming, segundo ele, a conta muda de tamanho.

“Para as plataformas de streaming, esse valor pode cair entre 40% e 50% devido à proximidade com os artistas e seus escritórios. Essa redução viabiliza o formato proprietário e transforma o evento em um valioso inventário de entrega de experiências para marcas anunciantes.”

Felipe Brat, CEO da Spons e ex-diretor de patrocínio da Ambev

O acesso também segue lógicas diferentes. No Spotify, os maiores ouvintes compram antes e o restante do público compra na venda geral; na Deezer, o show é benefício exclusivo de quem assina, distribuído por inscrição, sem bilheteria. Em comum, as duas transformam o aplicativo em porta de entrada para o ao vivo, um caminho que o Spotify já pavimenta com a playlist Concerts Near You, usada por mais de 3 milhões de pessoas para descobrir shows.

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