O triunfo da viola no campo e na cidade : Revista Pesquisa FAPESP


Sociedade

Livro oriundo de tese de doutorado multipremiada conta como o instrumento se confunde com as transformações da história brasileira, dos jesuítas e poetas às celebridades atuais

O Violeiro (1899), de Almeida Júnior, óleo sobre tela 141 x 172 cm

Reprodução / Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo

O que os jesuítas, os bandeirantes, o poeta barroco Gregório de Matos (1636-1696) e o cantor sertanejo e celebridade Gusttavo Lima têm em comum? Mesmo separados por sécu­los, todos tiveram uma viola em suas mãos. Mais que um simples instru­mento, a viola é uma chave para com­preender a formação social do Brasil, principalmente no interior do país.

Introduzida por missionários jesuítas vindos de Portugal logo após o descobrimento, no século 16, ela começou sua trajetória na colônia, sendo utilizada na catequese dos povos originários. Depois, foi adotada pela população das nascentes áreas urba­nas e dedilhada em festas populares e religiosas. Aos poucos, foi se embre­nhando território adentro, acompa­nhando bandeirantes e tropeiros, tor­nando-se um símbolo da identidade do Brasil rural que vem se transfor­mando e se expandindo ao longo do tempo, sem perder seu caráter de organizadora das relações sociais, do modo de vida e das formas de perten­cimento das comunidades rurais.

“Desde sua chegada com os por­tugueses, a viola se ambientou bem no solo brasileiro, foi se acaipirando, até se tornar símbolo de uma socie­dade, de uma matriz cultural. E, com as primeiras gravações, a partir de 1929, ela deu origem a um gênero, a música caipira, que sobrevive até hoje”, resume Luiz Antonio Guerra, violeiro, sociólogo, cientista político e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), que acaba de lançar o livro Uma sociologia da viola caipira (Edusp, 2026), baseado em sua tese de doutorado. Defendida em 2021, a tese ganhou o Prêmio Silvio Romero de melhor monografia sobre cultura popular, o Prêmio Capes 2022 e o Prê­mio Destaque USP 2022.

Com subtítulo Os mestres de ontem e de hoje, o livro é dividido em duas partes. Na primeira, Guerra apresenta o alicerce histórico da introdução da viola no Brasil pelos colonizadores e narra sua transição de instrumento de centros urbanos para o mundo rural em meio às transformações socioeconômicas.

“Quando as violas chegaram aqui com os navegadores e jesuítas, elas não eram padronizadas pela fabri­cação industrial. Essa variabilidade continuou existindo no Brasil. Como o instrumento seguiu o caminho da colonização, a viola de cada região tem uma forma específica de fabricação, afinação e repertório. Era comum o próprio violeiro construir seu instru­mento artesanalmente”, diz Guerra.

Aquela que acompanhou os ban­deirantes e tropeiros para o interior de São Paulo, Minas Gerais e Goiás ficou conhecida como viola caipira, objeto de estudo do sociólogo. Já no Recôncavo Baiano, por exemplo, a viola machete é instrumento impor­tante no samba de roda, sendo con­siderada patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “É uma vio­linha pequena, tocada de forma total­mente diferente da caipira”, explica o pesquisador. No fim dessa fase inicial, surgem as primeiras fábricas brasilei­ras de violas padronizadas, a Del Vec­chio e a Giannini, fundadas em São Paulo na virada do século 19 para o 20, na esteira do aumento da imigra­ção de italianos, conta Guerra.

Na segunda parte do livro, o autor demonstra como a trajetória da viola acompanha transformações sociais mais amplas, especialmente o êxodo rural que marcou o Brasil ao longo do século 20. A migração de popula­ções interioranas para grandes cida­des levou consigo práticas culturais, entre elas a viola caipira, que passou a ocupar novos espaços e adquirir novos significados.

“Já na cidade, os migrantes do campo usavam a música caipira para expressar sua nostalgia e saudade da vida de outrora”, diz ele. Se antes era um símbolo quase exclusivo da vida rural, a viola passou a ecoar em um novo ambiente, formado por palcos urbanos, universidades, festivais con­temporâneos e produções fonográfi­cas que misturam tradição e experi­mentação. Para montar esse cenário, Guerra entrevistou mais de 60 violei­ros, que preservam técnicas tradicio­nais de afinação, toques e repertório, ao mesmo tempo que dialogam com outras linguagens musicais, como a MPB, o rock e a música instrumental.

Nesse diálogo, segundo o pesquisa­dor, a música caipira passa a ser cha­mada sertaneja. Nessa fase, ela se diferencia da caipira por absorver instrumentos e arranjos urbanos e tratar de temas mais universais, longe do universo rural. “Os violeiros con­temporâneos também são mediado­res entre mundos, o rural e o urbano, o tradicional e o moderno, o oral e o acadêmico”, explica.

Lima e a viola

Um exemplo é o cantor e celebri­dade Gusttavo Lima, um dos entre­vistados do livro. Nascido em família pobre, acompanhava seu pai na Folia de Reis e mais tarde tocou viola cai­pira em um trio com seus irmãos. A partir de 2010, tornou-se símbolo do sucesso da música sertaneja nas baladas urbanas. Embora não utilize o instrumento tradicional em suas gra­vações, Lima afirmou que ele é a base de sua formação musical e costuma tocá-la pontualmente em suas apre­sentações ao vivo.

“Ele se considera um herdeiro do Tião Carreiro [1934-1993], um dos principais expoentes da viola caipira”, conta o autor. Com base nisso, Guerra conclui que mesmo os principais artis­tas sertanejos, que protagonizam as grandes transformações estéticas no gênero com inclusão de novas sonori­dades e elementos culturais urbanos, têm sido um dos principais vetores de difusão da prática da viola caipira.

O livro é prefaciado por Ivan Vilela, também violeiro e professor livre-do­cente da Escola de Comunicações e Artes da USP. Compositor com 20 discos gravados, Vilela foi ainda o res­ponsável pela criação do bacharelado em Viola Caipira na universidade, a partir de 2005. “Um instrumento com mais de 800 anos de idade só foi ter um curso superior dedicado a ele no século 21”, observa.

Segundo Vilela, a viola é uma moderadora do surgimento das rela­ções dentro das culturas populares no Brasil. “A música popular ainda é a grande cronista dos povos que não tiveram outra maneira de registrar a sua história, como os caipiras, os sam­bistas favelados do início do século 20, os retirantes nordestinos. O que sabe­ríamos de sua vida se não fossem suas músicas? E, na maioria dos casos, a viola está inserida nesse cenário.”

“A música popular ainda é a grande cronista dos povos que não tiveram outra maneira de registrar a sua história, como os caipiras, os sambistas favelados do início do século 20, os retirantes nordestinos. O que saberíamos de sua vida se não fossem suas músicas? E, na maioria dos casos, a viola está inserida nesse cenário” — Ivan Vilela, violeiro e professor livre-docente da Escola de Comunicações e Artes da USP

O músico destaca o fato de que gravuras de viajantes e quadros de pintores do século 19 retratam ape­nas pessoas do povo tocando viola, as quais aparecem nas pinturas de vio­leiros de Almeida Júnior (1850-1899) e Oscar Pereira da Silva (1867-1939). Vilela nota que, quando é uma pes­soa branca que está se apresentando nas imagens, ela não toca viola, e sim bandola, um instrumento cuja por­ção inferior é arredondada, quase circular — está presente nas gra­vuras de Johann Moritz Rugendas (1802-1858) e Jean-Baptiste Debret (1768-1848). “Quando o personagem é pobre ou negro, é uma viola que ele está tocando. Assim, a viola acaba tra­zendo junto com ela um traço cultu­ral e étnico dos locais onde está ligada a esses grupos”, afirma.

Até meados do século 19, a viola era o principal acompanhamento dos cantores. “Ela cumpria o papel que o violão tem hoje. E eu sempre vi a viola como um instrumento de uma difusão bastante democrática, permeando todas as classes sociais. A historiadora Isabel Lustosa comenta que dom Pedro 1º [1798-1834] tocava viola. O padre José Maurício Nunes Garcia [1767-1830] a usava em suas aulas de música porque não tinha um cravo [instrumento semelhante a um piano]. O biógrafo do poeta Gre­gório de Matos afirma que ele próprio tinha feito a viola que tocava”, conta Marcia Taborda, violonista e profes­sora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Já o violão chega ao Brasil tra­zido pela família real portuguesa, que foge para o Rio de Janeiro em 1808 para escapar das forças invaso­ras do imperador francês Napoleão Bonaparte (1769-1821). Chamado de “guitarra francesa”, o instrumento aos poucos foi ocupando o lugar que a viola tinha nas cidades. Mais fácil de afinar e tocar, acaba se popula­rizando. Enquanto o violão apre­senta um corpo maior, seis cordas simples e uma afinação universal, a viola caipira possui cinco cordas duplas (totalizando dez), várias afi­nações e um corpo menor e mais estreito. É a partir daí que ela vai ficando mais associada às regiões interioranas.

Para Guerra, a modernização dos ritos da Igreja Católica também con­tribuiu para o desaparecimento da viola nos centros urbanos. Segundo o pesquisador, era um instrumento muito usado em festejos religio­sos, como Folia de Reis e Cururus. “A Igreja acaba desestimulando esses fol­guedos para controlar as formas de
culto. Essas festas e danças vão sobre­vivendo no interior, onde a fiscaliza­ção do Estado e a doutrinação religiosa eram menores, e a viola sobrevive com elas, tornando-se um importante ele­mento sociocultural dessas comuni­dades”, afirma. Nesse contexto, a viola se torna símbolo de pertencimento dentro da cultura da oralidade, em que saberes são transmitidos por convi­vência, prática e memória. “O violeiro não é apenas músico. Ele é guardião da memória, narrador e mediador cul­tural”, resume.

Acervo Pedro Massa/Instituto Cornélio PiresCornélio Pires, pioneiro na gravação de viola caipira, em apresentação no início do século 20Acervo Pedro Massa/Instituto Cornélio Pires

Nas ondas do rádio

No início do século 20, a viola caipira faz o caminho inverso e amplia seu alcance por meio da nascente indús­tria fonográfica e do rádio. Em 1929, o folclorista e pesquisador Cornélio Pires (1884-1958) foi pioneiro na gra­vação do que ficou conhecido como “música caipira” ao financiar o regis­tro de violeiros e duplas.

Foi a primeira vez que uma viola caipira entrou em um estúdio de gra­vação. Pires anunciou o lançamento de Moda de viola, em outubro de 1929, com a seguinte declaração: “Esse é o canto popular do caipira paulista em que se percebe bem a tristeza do índio escravizado, a melancolia pro­funda do africano no cativeiro e a saudade enorme do português da sua pátria distante”.

“Havia uma demanda por reper­tórios que representassem a cultura rural, e a própria elite paulista tam­bém tinha interesse no resgate de suas tradições”, avalia Guerra. Segundo ele, a iniciativa de Pires levou à consoli­dação de um novo gênero musical, ampliada pela difusão no rádio. “Ele não padronizou apenas um estilo, mas também um jeito de tocar viola, uma afinação específica”, afirma, res­saltando que, por outro lado, a indús­tria fonográfica acabou por dar uma forma menos variável à música cai­pira, eliminando os improvisos exis­tentes do meio rural.

Martha Tupinambá de Ulhôa, professora da Universidade Fede­ral do Estado do Rio de Janeiro (Uni­rio), observa que, à medida que o país vai se transformando, as músi­cas que representam o Brasil rural do centro-sul também mudam. Nos anos 1950, por exemplo, a influência da música paraguaia, com as guarâ­nias, foi forte e, a partir dos anos 1960, a música caipira absorve sonoridades mexicanas, da Jovem Guarda e até dos Beatles. “Então, na música caipira, vai haver sempre uma tensão entre o que se inova e o que é tradicional, mas a viola mantém sua identidade mesmo quando se reinventa”, afirma.

Vilela avalia que, embora a urba­nização tenha mudado as narrati­vas, a identidade da viola continua a mesma. “A viola é uma cronista social de seu tempo”, diz. “Quando Corné­lio Pires grava músicas falando da Revolução de 1930, ou Alvarenga e Ranchinho cantam a falta de gaso­lina durante a Segunda Guerra Mundial, eles estão narrando exa­tamente o tempo em que estavam vivendo. Da mesma forma, músicas como ‘Menino da porteira’ e ‘Sau­dade da minha terra’ narram a nos­talgia de quem abandonou o campo e migrou para a cidade, mas foram compostas anacronicamente por pes­soas que já estavam no meio urbano”, conta. Para o violeiro, a manutenção da identidade do instrumento explica a existência de mais de 250 orquestras de viola no estado de São Paulo.

Com 29 anos de estrada, a Orques­tra Paulistana de Viola Caipira é comandada desde sua fundação pelo maestro Rui Torneze. Com for­mação em violão clássico, ele se apai­xonou pela viola em suas andanças pelo interior paulista como auditor contábil. Aos 30 anos, decidiu trocar a contabilidade pela música.

“Comecei a dar aulas de viola na Universidade Livre de Música, hoje Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim, e outras escolas de viola caipira. E os alunos desses cur­sos queriam também a prática do ins­trumento. A criação da orquestra foi um desdobramento das aulas”, conta.

Com 54 integrantes, a orquestra tem um CD de viola caipira indicado ao Grammy Latino e acumula apre­sentações na Europa. Segundo Tor­neze, um diferencial é que todos os músicos leem partitura. “Ela fun­ciona como uma orquestra sinfô­nica”, diz. O repertório é variado, unindo clássicos da música da roça com MPB e rock. “Tocamos de Vivaldi a Tonico e Tinoco, de Michael Jackson a Guns N’ Roses”, diz. Torneze define o repertório como dedicado à “forma­ção de público”. “Tocamos as músi­cas mais conhecidas e depois parti­mos para os clássicos da viola.”

Também com repertório que vai muito além das músicas caipiras, a Orquestra Filarmônica de Viola com­pletou 25 anos. Fundada por Ivan Vilela em 2001 na cidade de Cam­pinas (SP), a filarmônica é dirigida por João Paulo Amaral desde 2011. “A ideia inicial era criar um grupo a partir da socialização, dos violeiros e das violeiras que se encontravam para aprender e tocar viola. Depois o grupo naturalmente foi se profissio­nalizando e se aprimorando. O Vilela viu a possibilidade de tocar música caipira, mas também outros repertó­rios na viola. Ele teve a ideia de sepa­rar os violeiros como se fossem nai­pes de uma orquestra convencional”, afirma Amaral, ou seja, como os dife­rentes tipos de instrumentos musi­cais — cordas, percussão etc.

No repertório, clássicos da música caipira se mesclam a obras de nomes da música popular brasileira, como Milton Nascimento, Gilberto Gil e Tom Jobim (1927-1994), chegando até a Villa-Lobos (1887-1959) e à banda de rock britânica Led Zeppelin. Sem apoio institucional, a orquestra, de 15 componentes, sobrevive com cachê de shows e de recursos de outros tra­balhos. Recentemente a orquestra se apresentou na Sala São Paulo e no Fes­tival de Inverno de Campos do Jordão. “É um marco importante para a viola ter esse reconhecimento e tocar em um festival internacional, que é mais dedicado à música clássica e música de concerto”, diz ele.

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