O primeiro prefeito de Goiânia também tinha outra função: apitar partidas de futebol. Venerando de Freitas Borges, nomeado por Pedro Ludovico Teixeira em 1935, conciliou a administração da capital em construção com a arbitragem de jogos que reuniam centenas de moradores. Em 1938, chegou a comandar confrontos entre Atlético Goianiense e Corinthians Goiano, equipe que posteriormente passou a se chamar Goiânia Esporte Clube.
A história consta na biografia disponibilizada pela Câmara Municipal e ganha detalhes em uma pesquisa publicada na revista acadêmica Licere, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em dezembro de 2025. O estudo recupera registros dos jornais Correio Oficial e O Popular para reconstruir a formação do futebol goianiense entre 1936 e 1939.
Assinado pelos pesquisadores Jean Carlo Ribeiro, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), e Cleber Dias, da UFMG, o trabalho mostra que Venerando exerce a função de árbitro em um período no qual o futebol ainda passa por um processo de organização em Goiás. As partidas também revelam a rivalidade entre Campinas, antigo município incorporado à capital, e o novo núcleo urbano.
Primeiro prefeito apitou jogo em pista de aeroporto
Uma das partidas documentadas ocorre em maio de 1936, quando Goiânia ainda não havia recebido oficialmente a transferência da capital estadual. Na ocasião, duas equipes representam os moradores da nova cidade e de Campinas.
A falta de um campo apropriado leva os organizadores a utilizar a pista do aeródromo inaugurado no ano anterior. O terreno plano serve de espaço para o confronto, que tem Venerando de Freitas Borges como árbitro.
Segundo a pesquisa acadêmica, a partida reúne moradores, autoridades e apoiadores das atividades esportivas. A equipe que representa Goiânia vence o confronto, embora o estudo não informe o placar.
O episódio acontece antes da fundação do Atlético Goianiense, em 2 de abril de 1937, e mostra que a rivalidade entre as duas regiões já aparece nas atividades esportivas dos primeiros anos da cidade.
Campinas possuía uma história própria antes da construção da capital. O município já reunia comércio, instituições religiosas, escolas e espaços de convivência. A implantação de Goiânia, cujo núcleo ficava a aproximadamente cinco quilômetros dali, criou outra centralidade urbana e administrativa.
O futebol passou a expressar parte dessa relação. De um lado estavam os moradores de Campinas; de outro, servidores públicos, comerciantes e trabalhadores associados à construção da nova cidade.
Jogo apitado pelo prefeito terminou em confusão

Em 1938, o futebol já conta com dois representantes que disputam espaço na capital: o Atlético Clube Goianiense, fundado em Campinas, e o Corinthians Goiano Futebol Clube, criado por um grupo ligado ao novo centro urbano.
O Corinthians possui entre seus presidentes de honra nomes diretamente associados ao poder estadual, como Pedro Ludovico Teixeira, Jerônimo Coimbra Bueno e João Teixeira Álvares Júnior.
No fim de julho daquele ano, as duas equipes se enfrentam em Campinas, com Venerando de Freitas Borges responsável pela arbitragem.
A partida termina com vitória do Corinthians por 1 a 0. Na edição de 4 de agosto de 1938, O Popular registra o resultado e destaca a atuação do prefeito, que recebe elogios pela condução do confronto e pelo controle das jogadas violentas.
O problema aparece depois do apito final.
Ao deixar o campo na carroceria de um caminhão, jogadores da equipe vencedora são atingidos por pedras lançadas durante a passagem pelas ruas de Campinas. A confusão, relatada pela imprensa da época e recuperada pelos pesquisadores, demonstra que a rivalidade já ultrapassava as quatro linhas.
O futebol mobilizava comerciantes, dirigentes, autoridades e moradores dos dois núcleos urbanos. Os jogos passaram a funcionar também como espaços de afirmação das identidades de Campinas e da nova capital.
Prefeito voltou a apitar disputa pelo título da cidade

A participação de Venerando não se limita a uma partida isolada. Em dezembro de 1938, Atlético e Corinthians organizam uma série de confrontos para definir o campeão de Goiânia.
O regulamento estabelece três partidas, com possibilidade de uma quarta em caso de necessidade. Também determina regras para inscrição dos jogadores, escolha dos árbitros, recursos e julgamento de contestações.
O primeiro encontro ocorre em 11 de dezembro, no campo da Avenida Paranaíba, e termina com vitória do Corinthians Goiano.
Para o segundo confronto, marcado para 18 de dezembro, o treinador do Corinthians desiste de exercer a função de árbitro, conforme previa o regulamento. Venerando é escolhido para substituí-lo.
Desta vez, o Atlético vence e encerra a invencibilidade do adversário. Com uma vitória para cada equipe, o terceiro jogo fica marcado para 25 de dezembro, dia de Natal.
A rivalidade novamente provoca problemas. O Atlético vence a partida, mas o Corinthians contesta decisões da arbitragem e questiona a participação do goleiro atleticano na função de juiz, já que ele também era inscrito como jogador.
O Tribunal de Penas, comissão prevista no regulamento, analisa o protesto e anula o confronto. Sem acordo posterior entre as diretorias, os dois clubes acabam declarados campeões da cidade.
Em julho de 1939, o Corinthians Goiano passa a utilizar o nome Goiânia Esporte Clube, conforme registro de O Popular recuperado pela pesquisa acadêmica.
A participação de Venerando nesses episódios revela uma fase anterior à estrutura atual do futebol profissional, quando autoridades e integrantes da própria comunidade eram convocados para conduzir competições esportivas.
Quem foi Venerando de Freitas Borges?

Venerando nasce em Anápolis, em 22 de julho de 1907. Estuda em Campinas, quando a região ainda constitui um município independente, e posteriormente se muda para São Paulo, onde realiza estudos de Contabilidade.
De volta a Goiás, trabalha como professor e ingressa no jornalismo. A partir de 1930, escreve crônicas e artigos para periódicos. Também atua como diretor e redator-chefe de O Comércio, jornal que circula na antiga capital em 1934.
A aproximação com a administração pública ocorre durante a transferência da capital para Goiânia. Em novembro de 1935, aos 28 anos, é nomeado prefeito pelo interventor Pedro Ludovico Teixeira.
Permanece no comando municipal até novembro de 1945, período que coincide com a implantação da nova cidade e a estruturação dos primeiros serviços públicos.
A escolha de Venerando ocorre por nomeação, e não por eleição popular. O primeiro prefeito de Goiânia eleito diretamente é Eurico Viana, que assume o cargo em novembro de 1947, conforme a galeria oficial da Prefeitura.
Venerando retorna à administração municipal em janeiro de 1951, dessa vez eleito pelo PSD. Seu segundo mandato segue até janeiro de 1955.
Além da Prefeitura, ocupa a Secretaria Estadual da Fazenda, exerce dois mandatos de deputado estadual, entre 1955 e 1963, e torna-se conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCE-GO). Em 1967, chega à presidência da Corte.
Também participa da Associação Goiana de Imprensa, da Academia Goiana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Publica os livros Dobras do Tempo, em 1981, e Samburá, em 1986.
Do campo de futebol ao nome do Paço Municipal
Venerando morre em Goiânia, em 16 de janeiro de 1994, aos 86 anos, e é sepultado no Cemitério Santana.
Seu nome permanece associado à sede administrativa da Prefeitura, no Park Lozandes, denominada Palácio das Campinas Venerando de Freitas Borges. Uma estátua de bronze instalada na entrada do Paço Municipal também homenageia o primeiro prefeito.
Em outubro de 2025, uma exposição na antiga Estação Ferroviária reúne mais de 200 peças relacionadas à sua trajetória. Entre os objetos apresentados estão fotografias, documentos pessoais, mapas da antiga Goiânia e móveis utilizados em seu gabinete.
O acervo ajuda a recuperar a atuação política e administrativa de Venerando. Já os registros esportivos revelam outra parte de sua história: enquanto Goiânia construía suas primeiras ruas, edifícios e instituições, o homem responsável pela administração municipal também entrava nos campos de terra para apitar partidas de futebol.
Uma ligação entre política, esporte e formação urbana que permanece documentada nas páginas dos jornais da década de 1930.

