
O Spotify vai estrear, no primeiro trimestre de 2027, um complemento pago que dá aos subscritores ferramentas de inteligência artificial para remisturar temas conhecidos e publicá-los diretamente na plataforma. Segundo o Financial Times, a apresentação oficial desta opção deve acontecer em fevereiro, numa altura que coincide com a cerimónia de entrega dos prémios Grammy, exigindo uma mensalidade extra de 4 a 5 dólares (cerca de 3,80 € a 4,70 € à taxa de câmbio atual, sem impostos) face aos planos atuais.
Os ouvintes passam a dispor de algoritmos generativos para editar os ficheiros de áudio nos seus próprios equipamentos, convertendo o público comum em criadores de versões personalizadas do catálogo existente. Esta tecnologia permite converter canções folclóricas ou baladas acústicas lentas em temas de dança acelerados para discotecas, ou simular vocalmente que um determinado cantor está a interpretar a obra de outro músico. Terminada a edição, o utilizador pode carregar o resultado para os servidores do serviço sueco e integrá-lo em listas de reprodução públicas acessíveis a toda a comunidade global.
Acordos com as editoras e poder de veto dos artistas
O modelo de negócio desenhado pela empresa encaminha as receitas geradas por estas criações dos fãs para os detentores dos temas originais, somando também as audições das novas versões à contagem da faixa principal nas tabelas de popularidade. Estas garantias permitiram selar acordos de licenciamento com a Universal Music Group, a francesa Believe e o consórcio de editoras independentes Merlin, mantendo-se ainda as conversações com a Sony Music e a Warner Music.
Mesmo quando uma discográfica assina contrato com a plataforma de streaming, o músico conserva a palavra final sobre o seu catálogo e pode vetar a manipulação algorítmica das suas obras. Esta cláusula de exclusão responde à divisão profunda que se vive no setor: enquanto vários nomes veteranos aceitam testar a funcionalidade, diversas estrelas da música atual mantêm uma forte oposição ao projeto.
Combate ao spam gerado por IA e rastreio de direitos de autor
A gestão do serviço defende que um sistema oficial e licenciado é a melhor via para travar a proliferação de conteúdos ilegais e assegurar o consentimento e o pagamento aos autores, argumento que já tinha sido apresentado em maio por Alex Norström, codiretor executivo da tecnológica. Em sentido oposto, o compositor e ativista pelos direitos dos músicos Ed Newton-Rex alerta que a abertura a remisturas de utilizadores arrisca inundar o catálogo com faixas sintéticas, reduzindo a visibilidade das obras tradicionais e forçando os profissionais a aderirem ao formato para não perderem alcance.
O bloqueio de ficheiros artificiais criados em massa sem intervenção humana já obrigou a plataforma a destacar uma equipa exclusiva para separar o spam oportunista da produção musical legítima assistida por software, operação que resultou na remoção de 75 milhões de faixas só ao longo de 2025. O problema da manipulação de audições afeta todo o mercado, tendo a rival Deezer revelado no ano passado que 70% das reproduções de música gerada por IA tinham origem fraudulenta. Para proteger a propriedade intelectual neste domínio, a Sony criou um sistema de rastreamento que deteta quais as canções reais usadas no treino ou na geração de faixas sintéticas, permitindo aos titulares exigir compensações financeiras pela utilização não autorizada das suas obras.


