Candidato à reeleição, o presidente Lula, do PT, perguntou se deveria mudar sua saudação habitual numa manifestação em São Paulo, há duas semanas. “Devo começar dizendo ‘companheiros’ ou ‘fandoms do Brasil?’”, afirmou ao se dirigir aos fã-clubes que o aplaudiam. Estavam lá amantes da americana Beyoncé e da boy band sul-coreana BTS.
O petista agradeceu por eles terem ajudado a organizar o que se tornou a maior manifestação da esquerda em cinco anos. Os “fandoms” usaram o Instagram para pedir que seus seguidores fossem às ruas no último dia 11, após o primeiro turno das eleições, quando Flávio Bolsonaro, do PL, saiu à frente. Eles se enfrentam nas urnas de novo neste domingo (25).
O movimento dos fãs foi endossado por artistas brasileiros como Jão e a rapper Duquesa, populares entre os jovens. Até o americano Finneas, irmão da cantora Billie Eilish, uma das mais ouvidas no mundo, fez o “L” em uma foto nas redes. A convocação levou milhares de pessoas à avenida Paulista, ocupando 12 quarteirões, em estimativas feitas a partir de imagens. Não há estimativa oficial de público porque a campanha de Lula proibiu drones, que ajudariam na contagem.
Flávio não tem fã-clubes endossando sua campanha com o mesmo empenho. Tampouco recebeu apoio de músicos no mesmo volume que Lula. Enquanto os últimos atos pelo petista tiveram Caetano Veloso, Gilberto Gil e Marina Sena, não se viram cantores nas grandes manifestações pró-Flávio. A maior delas aconteceu também na Paulista, no último domingo (18), com 71,9 mil pessoas, de acordo com o Monitor do Debate Político do Cebrap e a ONG More in Common.
Alguns sertanejos se reuniram com Flávio após o ato, como Gusttavo Lima, Zezé Di Camargo, Marrone, da dupla com Bruno, e Rodolffo, que canta com Israel, na fazenda do senador Wilder Morais, do PL, na última terça-feira (20).
Mas há um contraste entre a nova mobilização dos “fandoms” por Lula e a relação que a direita bolsonarista tem hoje com o sertanejo. Flávio não encontrou nos cantores do gênero o mesmo apoio obtido por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. “Pô, artistas de direita, vamos tomar o risco, botar a cara”, pediu ele no Instagram há uma semana.
Sertanejos como Eduardo Costa e Chitãozinho, apoiadores de Jair, agora dizem não endossar candidatos nem partidos. “Apesar de eu ter um lado político, não quero ficar enfatizando isso”, afirmou Zezé Di Camargo, há duas semanas, à página de Instagram Sonho Sertanejo.
O presidente Lula, por outro lado, conseguiu reaver o apoio que historicamente tem na ala artística. No sábado (17), dezenas de cantores e atores publicaram fotos no Instagram fazendo o “L”.
As redes sociais vêm desempenhando um papel inédito na campanha petista. Os “fandoms”, em especial, tentam chamar a atenção de eleitores ainda indecisos com publicações que misturam imagens do presidente a videoclipes de divas pop.
Num desses memes, gerado com inteligência artificial, Lula desfila como uma rainha em cenas do clipe de “Dark Horse”, de Katy Perry. O título é o mesmo do vindouro filme sobre Jair Bolsonaro e faz referência a um competidor que começa fracassado e termina vitorioso.
Os fã-clubes exploram também referências do k-pop, como o gesto de coração com os dedos pinçados. Lula fez o sinal em fotos com o deputado federal Guilherme Cortez, do PSOL, que está à frente de pautas ligadas à juventude e à comunidade LGBTQIA+.
Fãs de música pop veem no presidente “alguém capaz de agregar grupos minorizados e que valoriza a diversidade”, diz o pesquisador Pedro Curi, especialista em cultura de fã e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing no Rio de Janeiro.
Artistas como Madonna e Lady Gaga construíram laços com a comunidade LGBTQIA+ e com as mulheres por causa das letras libertárias, das manifestações de apoio e de doações a grupos marginalizados. O público delas, portanto, encontra nos fã-clubes um espaço de acolhimento e pertencimento, diz o pesquisador.
“Tivemos receio de perder seguidores. Mas depois veio o medo de Flávio ganhar e não dá para comparar”, diz Marcelo Marchioli, gestor da página Katy Perry Brasil, acompanhada por 133 mil usuários. Ele diz que não recebe financiamento do governo pelo apoio. “A própria Katy se queimou por apoiar Hillary Clinton contra Donald Trump. Mas, num discurso, ela disse ‘se você tem voz, precisa usar’. E a gente tem uma puta voz.”
O apoio a Lula não é unânime entre os “fandoms”. O perfil VemKorear, voltado a artistas sul-coreanos, afirmou que o grupo BTS não deveria ser usado de bandeira para debates políticos brasileiros. Outra parcela de fãs, porém, defende que a boy band nasceu progressista, com músicas que criticam desigualdade e defendem minorias. Eles fazem três shows em São Paulo na próxima semana.
A aproximação entre o presidente e os fã-clubes começou há dois meses. Ele convidou representantes dos grupos para uma reunião em Brasília, em que assinou medida contra o cambismo na venda virtual de ingressos para shows. A norma exige também água potável gratuita em eventos com mais de mil pessoas.
A discussão surgiu quando uma fã de Taylor Swift morreu em um dos shows que a cantora fez no Rio de Janeiro há três anos. À época, a deputada federal Erika Hilton, do PSOL, reeleita neste ano, apresentou um projeto de lei para obrigar a oferta de água nesses eventos, e ajudou a intermediar o contato entre os “fandoms” e o governo federal.
Esses fã-clubes se mostraram mais organizados do que movimentos estudantis, afirma Guilherme Cortez, o deputado do PSOL. “São pessoas dispostas a pôr a mão na massa. É uma nova forma de mobilização legítima.” O movimento virou tema de reportagem do jornal britânico The Guardian.
Para Cortez, a esquerda encontrou nos fã-clubes uma forma de conversar com os jovens, algo em que a extrema direita estava sendo mais eficiente, ele diz. “Estavam na nossa frente nas redes sociais, por onde essa geração se informa.”
Nas plataformas, representantes da direita como a deputada federal Eduarda Campopiano, do PL, e o próprio Flávio Bolsonaro, aparecem cantando e dançando músicas de funk, gênero popular entre jovens e antes repudiado por setores desse espectro político. A aproximação do funk escancara o esfriamento que houve entre Flávio e o sertanejo.
O cantor Eduardo Costa disse nunca ter recebido “tanta pancada” como quando se envolveu com política. Antes apoiador de Jair Bolsonaro, no ano passado ele afirmou que não recebeu agradecimentos e que não voltaria a apoiar candidatos publicamente.
Chitãozinho, que também endossava Jair, não se manifestou a favor de Flávio neste ano. Há dois meses, ele disse preferir falar só de música.
Após Flávio cobrar que artistas de direita se manifestassem, Gusttavo Lima, Leonardo e Zezé Di Camargo interromperam shows para dizer que votariam nele. Na terça, quando encontrou o político pessoalmente, Lima publicou um registro no Instagram.
Membros da equipe de grandes cantores sertanejos ouvidos pela reportagem afirmam, em condição de anonimato, que os artistas se afastaram do debate político por temerem uma rejeição no Nordeste. Há 20 anos, a região se consolidou como reduto eleitoral do PT. Ela se tornou também um polo importante na agenda de shows dos astros, que teriam sido aconselhados por empresários a não se envolver na campanha.
Zezé Di Camargo publicou, nesta quarta-feira (21), um vídeo para dizer que ama os nordestinos, chamando-os de “carentes e calorosos”, e criticando o governo Lula. “Muita gente acha que eu não deveria falar. Dizem que tenho fãs dos dois lados”, afirmou no vídeo.
A reportagem procurou as equipes de Zezé Di Camargo, Gusttavo Lima e Chitãozinho. Nenhum aceitou dar entrevista. O cantor Jão, ativo do lado de Lula, também não quis falar. Foram procurados ainda fã-clubes do cantor sertanejo Luan Santana, que, segundo internautas, teria declarado apoio ao atual presidente ao fazer o sinal de “L” em shows. Eles não responderam.
“Cantores sertanejos estão em silêncio com medo do que pode ser descoberto em relação à corrupção praticada para financiar shows”, diz a deputada federal Erika Hilton. Em 2022, o Ministério Público investigou contratações de sertanejos por prefeituras, trazendo à tona cachês milionários recebidos por Gusttavo Lima. O movimento ficou conhecido como CPI do Sertanejo.
Gustavo Alonso, pesquisador de música sertaneja e colunista da Folha, diz que é ilusório considerar que há uma polarização definitiva entre sertanejos e artistas pop. Ele lembra de evento promovido por Jair Bolsonaro, há quatro anos, quando artistas como Chitãozinho e Marrone foram desacompanhados dos parceiros Xororó e Bruno. Já Nana Caymmi, da MPB, se pôs ao lado de Jair.
O hoje bolsonarista Zezé Di Camargo cantou em comícios de Lula em 2002 e cedeu a música “Meu País” à campanha do petista. “A esquerda precisa querer dialogar com esse país novo”, diz Alonso. “Não vivemos mais num Brasil recém-saído da ditadura, de resistência idealizada. É um país evangélico, conservador, rural.”


